[um trecho de ADOLFO CASAIS MONTEIRO]
Entre a arte dos grandes períodos feita para unir a aristocracia que tinha tempo para se educar, e a arte da democracia, que ainda não existe, vivemos hoje nesse período de trevas que é a idade industrial, em que a ascensão da burguesia custou o abastardamento do gôsto ou, melhor, a ausência de cultura do gosto das multidões, que passaram a ter, teoricamente, acesso à cultura, mas que dela só receberam, afinal, uma imagem de manual, a ilusão do saber apanhada através duma educação que, de tanto querer ser "útil", de todo se esqueceu de educar os homens para o amor das coisas.
Para entender arte é preciso ter o amor da "matéria"; o que vale uma cor ao lado de outra, o que vale o jogo de determinados volumes, o sentido que possuem as linhas, tudo isto se pode ficar a saber sem nunca se ter "aprendido". Porque a arte. é, antes de mais nada para os olhos. E aprende-se a ver... vendo, pela mesma razão que não se ...chega a gostar de música por se saber marcar o compasso, ou por saber distinguir uma colcheia de uma semifusa. Como tampouco é preciso saber contar as sílabas para se gostar de bons versos, e para os distinguir dos maus.
A matéria de que é preciso gostar, para se gostar de pintura, está nos elementos do mundo que nos rodeia, no inanimado e no animado, nas suas formas "imóveis" e no seu movimento. O que aconteceu com a vitória da burguesia foi uma invasão pavorosa, na vida quotidiana, de falsos elementos estéticos, que passaram a envenenar desde pequeninos aos pobres cidadãos que se julgavam donos do mundo e afinal estavam em vias de perder a razão que faz a vida digna de ser vivida. A sociedade burguesa desaprendeu, como sociedade, o que se salvara através das grandes culturas do passado graças a um sistema condenável, claro está, mas cujas virtudes aquela não soube distinguir dos seus defeitos. A democratização da cultura foi a grande mentira do século XIX. Democratizaram-se técnicas úteis, mas a cultura só se salvou "contra" o próprio espírito da nova sociedade.
(excerto de 'Uma Tese e Algumas Notas Sôbre a Arte Moderna', Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1956)
Entre a arte dos grandes períodos feita para unir a aristocracia que tinha tempo para se educar, e a arte da democracia, que ainda não existe, vivemos hoje nesse período de trevas que é a idade industrial, em que a ascensão da burguesia custou o abastardamento do gôsto ou, melhor, a ausência de cultura do gosto das multidões, que passaram a ter, teoricamente, acesso à cultura, mas que dela só receberam, afinal, uma imagem de manual, a ilusão do saber apanhada através duma educação que, de tanto querer ser "útil", de todo se esqueceu de educar os homens para o amor das coisas.
Para entender arte é preciso ter o amor da "matéria"; o que vale uma cor ao lado de outra, o que vale o jogo de determinados volumes, o sentido que possuem as linhas, tudo isto se pode ficar a saber sem nunca se ter "aprendido". Porque a arte. é, antes de mais nada para os olhos. E aprende-se a ver... vendo, pela mesma razão que não se ...chega a gostar de música por se saber marcar o compasso, ou por saber distinguir uma colcheia de uma semifusa. Como tampouco é preciso saber contar as sílabas para se gostar de bons versos, e para os distinguir dos maus.
A matéria de que é preciso gostar, para se gostar de pintura, está nos elementos do mundo que nos rodeia, no inanimado e no animado, nas suas formas "imóveis" e no seu movimento. O que aconteceu com a vitória da burguesia foi uma invasão pavorosa, na vida quotidiana, de falsos elementos estéticos, que passaram a envenenar desde pequeninos aos pobres cidadãos que se julgavam donos do mundo e afinal estavam em vias de perder a razão que faz a vida digna de ser vivida. A sociedade burguesa desaprendeu, como sociedade, o que se salvara através das grandes culturas do passado graças a um sistema condenável, claro está, mas cujas virtudes aquela não soube distinguir dos seus defeitos. A democratização da cultura foi a grande mentira do século XIX. Democratizaram-se técnicas úteis, mas a cultura só se salvou "contra" o próprio espírito da nova sociedade.
(excerto de 'Uma Tese e Algumas Notas Sôbre a Arte Moderna', Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1956)
Sem comentários:
Enviar um comentário