segunda-feira, 27 de abril de 2009

André Domingues

ESTENOSE DA LIBERDADE
1. Breve História da (Marca) Servidão
A servidão é um péssimo costume. Doutorada honoris causa em consequências inimagináveis, a morte fê-la uma noite, na cama com Saturno, bêbado como um cacho, a fingir um orgasmo pouco provável. Saturno, já se sabe, depois da queca, volta sempre aos seus maus humores e achaques e a morte aproveitou, quanto a mim muito convenientemente, o mórbido e entediante período refractário de Saturno para foder a Humanidade como deve de ser.Nisto, nasce a servidão.Segundos os obstetras da época, a servidão nasceu prematuramente, com apenas meia hora de vida e assemelhava-se a um pequeno caranguejo de borracha. Encharcada em lágrimas falsas, num primeiro e único acto de misericórdia, a morte resolve dar-lhe uma segunda oportunidade e oferece-lhe a possibilidade de um corpo humano belíssimo, cabelos de oiro anelados e o puzzle infinito de um mundo novo para montar. Em troca, a servidão trabalharia perpétua e confidencialmente para a sua mãe, favorecendo eras e epidemias, em regime de subcontratação, num qualquer teatro municipal. O contrato fora assinado com um beijo incestuoso, que passou, à mesma hora, em todos os canais nacionais.Com a sua nova e próspera vida, a servidão tornou-se numa criança muito bonita e rapidamente cativou adeptos em todos os cantos do mundo. Gente que parava na rua para lhe dar um beijo e ficar sem face, era já muito comum. Gente muito motivada que vestia verdadeiramente a camisola da servidão. Gente que trabalhava diariamente para o circo da solidão e não dava conta. Gente que enriquecia, amando a servidão, etc.Aos 4 anos de idade, a diva era já uma imperatriz, consolidada no seu feudo, ministra dos negócios estrangeiros da morte, representante máxima da condição humana no seu próprio habitat. Tinha sido coroada por toda a gente, por toda a parte. Tinha conquistado o amor dos animais, o voto em branco das árvores, o sorriso célere dos rios, o azul do céu e a rede de comunicações mundial.A partir daqui, a História, na generalidade, repete-se.A pequena tirana teve poderes para tudo, ao longo dos séculos, ao longo dos planos. Mas uma súbita e ainda ingénua relação lésbica com a Minúcia fez com, muito cedo, preferisse prolongar a Idade Média até à Idade Media actual. Os seus mecanismos de tortura baseiam-se ainda em sistemas de correntes e engrenagens, que, com todo o meu respeito, funcionam muito bem e hão-de funcionar, mas através dos quais já se vislumbra a contaminação da ferrugem, o consórcio do tempo e da revolução, a vacina óbvia e tautológica, a que nem a morte acede com a sua mais imunda perspicácia.Não obstante este visionário e imponderado panorama, não se avizinha nenhuma funesta cura ou próxima erradição: está sempre na moda a servidão. É como uma doença ucrónica, chique e mediática. O seu corpo é uma narrativa ao mesmo tempo pop e apoptótica e a sua fonte fortemente ecfrástica.Warhol não hesitaria em conceder-lhe um lugar entre as sopas, dentro de uma lata de conservas amarela e cintilante, assinando talvez, com o consentimento de Freud, “O mal-estar da civilização”.andré domingues

domingo, 26 de abril de 2009

IN HOC SIGNO VINCES

vai para muito tempo
pensamos
porque não fazer coisas compostas unicamente por imagens geniais?
porque não fazer coisas compostas unicamente por imagens que os outros não se atrevem?
porque não?
porque não romper com o mundo de hoje e gritar a independência
a sonolencia a imagética sobrevivencia

ainda que ninguém nos entenda
é que afinal
nós sempre entendemos
ainda que ninguém esteja interessado nisso
é que meus senhores minhas senhoras
nós sempre estivemos interessados
e
desinteressados por aquilo que é do interesse das maiorias uma vez que
nunca fomos conquistadores de prémios
nunca tivemos vagar para isso nem sequer
para muito mais
prémios em espécie - galinhas, pacotes de arroz, rebuçados de alcaçuz e de mel, puloveres e guarda-chuvas, enfim, o que cria o belo horror nos corações,
nos vossos coraçõezinhos sofredores, ou vos faz rir como soldadinhos em manobras, raios e coriscos que é
o que está agora na moda e nos romances sentimentais



(pausa)

as nossas imagens são as outras, as malandrecas, elas
incomodam?
a nós nem por isso
depois
construímos o fim para melhor entender o início
e
mergulhámos no balde do abjeccionismo
na poesia que rompe com com os espaços correctos
e
se abre ao insurrecto ao tempo provecto
vai para muito tempo
pensamos
porque não fazer coisas compostas unicamente pelas imagens de poemas geniais
perdemos 30 minutos à mesa de um café
ganhámos 30 anos de vida activa
construímos espaços sem espaço
construímos bicicletas de papel
bebemos chá de mandrágora do cantil de um velho feiticeiro
pedalámos no nosso velocípede
sem necessidade de furar a câmara de ar dos outros concorrentes
vai para muito tempo
pensamos
porque não construir imagens
decompostas sobrepostas penduradas
no quotidiano
é que
há automóveis negros nos nossos maus pensamentos
e
respirações cobertas de papeis humedecidos por manhãs inesquecíveis e que jamias poderemos recordar, faço-me entender? Então vão lá em paz, tenham bons sonhos e já agora não gritem muito no momento de rebentar e para finalizar uma perguntinha: como se chamava o vosso gato, o vosso tio, o vosso antigo professor? Se a resposta for a que todos esperam, bem podeis protestar, não tendes safa e, de novo, que durmam todos bem e sem animais monstruosos a esperar-vos à entrada de casa quando lá chegarem depois deste maravilhoso discurso!
M.a.s

=

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Palavra Ibérica-Edita 2009


Valdir Rodrigues


Um minuto
Trancado no banheiro,
Fiquei em silêncio...
Observei em detalhes todo o ambiente... (...) (...) (...)
(...)... Percebi o quanto tudo era pequena,
e grande ao mesmo tempo...
derramei uma lágrima
que lentamente percorreu minha face,
que queimado do sol,
marcava riscos que viravam rios
naquele momento...
Um pensamento de fúria e ódio me dominou!!!...
O choro, foi um grito da minha alma,
O ser humano é tão belo,
Maravilhoso...
Com a capacidade divina de amar,
Doar-se ao próximo...
... E infelizmente não passam de indivíduos,
perambulado solitários
Vivos mortos!!!
Que não dizem nada com nada!!!...
Coisa com coisa!!!...
Num mundo individual cheio de espelhos
Onde vemos só a nossa imagem...
Nós somos nossos inimigos,
Que necessita de ajuda,
De um mimo,
E recebemos um vazio!!!
Com criticas não construtivas,
Pensando saber o que é melhor
Para os outros,
Esquecendo do próprio traseiro!!!...
Como pode alguém Julgar... Falar... Criticar Sem não conhece Quem sou?!!!...

Clamor
Serão estes versos
A reencarnação da voz da liberdade?!!!
Que clama por justiça?!
Tentando quebrar as correntes
Que incansáveis insistem,
As mãos dos homens?!!!
Busco asilo como Fagundes!... Que no lugar do álcool Aconchega-se na rua lima, Entre o amor e os pássaros!!!
Qual maior dor?
De ter como cenário
A escravidão?...
A guerra?...
A fome?...
E saber que é real
Mesmo depois que o condor,
Teve como irmão o povo?!!!
Gritem!!! Gritem!!!
Não se acalmem homens!
Pequeno e escravo
É aquele que tem como morta - a voz!...
O grito por liberdade!!!...

À noitinha

Gosto do vento
Que sopra a cortina
Da janela.
Da lua que clareia
O quarto
Junto com a vela.
Gosto da minha cama,
Do pijama de cor amarela,
Do sono que chega...
Pois, me faz Sonhar com ela...

Retratação
Como um errante
Louco por batalhas,
No bronze frio das balas
Que voam cabeças,
No negrume da noite
Entre testas bronzeadas
No deserto de corações...
Bronzeados pensam que é do sol!
Não sabem que é da luz divina,
Onde Deus com suas lágrimas Alimenta os famintos...
Que depois de fartos,
Viram as costas,
E na flor se alegram,
Nas mulheres se deleitam
Matando seus desejos...
Buscam constantemente a resposta,
Esquecendo-os das lágrimas divina,
Que os alimentaram...

Sentimentos
Caía à noite...
As estrelas brindavam...
A lua em sua utopia
Desenhava-se nos teus olhos...
Crio asas!...
Tomo-a em meus braços,
E voamos j untos...
Como anjos no céu...
Seus olhos...
Seus lábios...
... Acordo depois de instantes!
... Imóvel!...
Observando você...
O meu interior se agita!...
E descubro então,...
Que uma parte de mim
Sou eu,
E a outra...
É você!!!