terça-feira, 20 de agosto de 2013


É claro que não ficaria nem bem que o nosso anónimo amigo ficasse sem a justa e compatível resposta - paráfrase et concordantia!

(...)
Poeta é um padre que fode
Não como um luterano ou um judeu...
Talvez tenha alguma coisa de parecido com um judeu
É um homem que está sempre na dúvida
Fode mas pensa que não deveria foder
Pode ser uma mulher
Também há mulheres que fazem versos
E sabem
E temem
Que exista uma magia sexual
É um monge que foi expulso do mosteiro
Depois de ter violentado repugnantemente
Uma cabra
O poeta é um sujeito
Que podia ter tido tudo na vida
Que por vezes mesmo teve tudo
E se tornou um predicado
Da sua própria oração de sapiência
Um jogador que perdeu tudo
Na cor indefinível de uma carta
Num número errado
Determinado por dados viciados
Numa roleta avariada e russa
Escravo de uma vontade de superar o ser
Jockey de uma montada coxa
Apostador sobre um cavalo morto
Um segundo antes de cruzar a linha de chegada
Compondo em escuridão os padrões
Matizados de uma seda indefetível
Destinada a ser vestida por rainhas
De reinos há muito subjugados
Apóstolo de um profeta confuso
Que foi excluído do panteão
E cujas profecias nunca se confirmaram
Poderia ser que um dia cuja alvorada não chegou
Fosse uma hora cujo primeiro segundo
Foi arrancado do relógio confundindo o tempo
E como tudo o que afinal é grande e eterno
Não chegasse sequer mesmo a ter existido
Ainda assim
Como do alfaiate as roupas do rei nu
O poeta tê-las-ia visto
Por vaidade talvez mas sobretudo
Por ser criança
Dentro de um corpo acumulado de experiencias
Demasiado fraco para tamanha voz
Perdido de ilusão no espaço de uma letra
Conglomerando em si todas as palavras
Que arranca em desespero a marca amarga do destino
Impotente contra a marcha inexorável da fatalidade
E paradoxalmente fodido
Assim é o poeta
Que todos nós psicografamos
Na doce tentação da liberdade.
(...)

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