Caro Viriato
Soromenho-Marques
Ponhamos desde já de lado o
excesso retórico – que o levou a qualificar, no seu artigo, a posição
“anti-federalista” recorrendo a expressões como “profunda iliteracia política”,
“analfabetismo” (“hostilidade analfabeta ao federalismo”) ou “superstição”. Eu
próprio tenho também já recorrido a expressões mais excessivas – tenho falado,
sobretudo, de “delírio” –, para qualificar aqueles que (ainda) defendem o
federalismo europeu.
Escusado será dizer que não
me move qualquer hostilidade contra si. Bem pelo contrário. Nunca tendo chegado
a ser seu aluno por acaso, sempre acompanhei com o maior respeito intelectual o
seu percurso. E não tenho a menor dúvida de que todo o seu afã pró-europeísta é
motivado pela melhor das intenções. Julgo, porém, que está errado, como
procurarei aqui sustentar.
Antes de mais, desdobro a
questão em torno do federalismo em dois planos: no plano do desejável e do
possível. A tese que defendo é que, por mais desejável que fosse, o federalismo
na Europa não é, de todo, possível. Falo, obviamente, nos tempos de hoje. Na
época medieval, para não recuarmos mais, talvez tivesse sido possível (e nunca
estivemos tão próximos de uma real unidade europeia como nessa altura, conforme
sabe). Hoje, no século XXI, o federalismo europeu há muito que deixou de ser
possível. Eis, em suma, a tese que procurarei aqui defender.
Para tal, obviamente, irei
contestar os seus argumentos e, sobretudo, os exemplos que dá, nomeadamente
quando refere que “a pluralidade cultural de países com os EUA e o Brasil, ou a
diversidade linguística da Confederação Helvética, tornariam improváveis, ou
inexplicáveis, fenómenos de sociedades, profundamente diversas, com séculos de
história comum bem-sucedida”. Qualquer destes três exemplos que refere me parece
falacioso, ainda que por razões diversas.
Comecemos pelos Estados
Unidos da América. Como o Viriato Soromenho-Marques sabe, bem melhor do que eu,
apesar de, como refere ainda, já existir “uma profunda diversidade de religiões
e culturas no período dos Pais Fundadores”, a verdade é que havia, não obstante,
uma força dominante, que tem até uma sigla bem conhecida: WASP (“White
Anglo-Saxon Protestant”). Sem essa força dominante, os Estados Unidos não se
teriam tornado, provavelmente, numa federação. Digo até mais: se a correlação
étnica e cultural que hoje existe nos EUA, com a força cada vez maior da
comunidade hispânica, se verificasse no “período dos Pais Fundadores”, o
federalismo norte-americano teria sido impossível.
Quanto ao Brasil e à sua
diferença relativamente a toda a restante América Latina, “colonizado
principalmente por católicos espanhóis [mas que, apesar disso] se fragmentou
numa multidão de Estados soberanos”, isso, a meu ver, prende-se com a
especificidade da colonização portuguesa. Sei que esta é uma tese “politicamente
suspeita” e que pode ser usada pelas piores razões, mas não deixa, a meu ver, de
ser historicamente verdadeira. Por mais que os portugueses tenham também, como
os espanhóis, dizimado as populações indígenas e recorrido à escravatura em
grande escala, a verdade é que criaram as bases de uma unidade nacional que
permitiu, historicamente, que o Brasil não se tivesse fragmentado.
O mesmo se diga, de resto,
dos países africanos de expressão portuguesa – não obstante todo o sangue
derramado, até bem mais recentemente, a verdade, que pode ser comprovada todos
os dias (caso, obviamente, os nossos preconceitos o não impeçam) é que a relação
existente entre nós e os povos que colonizámos é bem diferente da relação que
(não) existe (ou existe de forma significativamente diferente) entre os outros
povos europeus e os demais povos que estes historicamente colonizaram (na
África, nas Américas ou na Ásia). E não falo aqui da retórica dos governantes,
sempre oscilante conforme os interesses em jogo. Falo do sentimento mais genuíno
e generalizado das populações – e que pode ser aferido em exemplos tão prosaicos
como a forma como na África lusófona se segue o campeonato português de
futebol.
Poderíamos referir
igualmente, para reforçar ainda mais a nossa tese, o caso de Timor-Leste, mas,
para não nos desviarmos do que está aqui em causa, falemos do terceiro exemplo
que o Viriato Soromenho-Marques nos dá: a Confederação Helvética. Aparentemente,
é o exemplo perfeito: uma experiência federal (ou, mais exactamente,
confederal), bem no centro da Europa, que poderia ser estendida a todo o
continente. Esse exemplo é, porém, inteiramente reversível. E, para o
demonstrar, não vou sequer defender que a Suíça é uma mera criação do
capitalismo financeiro, que tem nos seus bancos a grande razão de ser da
manutenção do país. Saliento apenas o preço que a Suíça paga para manter o seu
regime político: a “neutralidade”, ou, falando de forma mais clara, a ausência
de uma política externa digna desse nome.
De resto, esse é também o
meu argumento mais forte contra a possibilidade de um federalismo europeu: mais
até do que as diferenças linguísticas, culturais e religiosas. E que se funda na
seguinte constatação: havendo já cargos na burocracia europeia que denotariam a
existência de uma política externa comum, a verdade é que esta não existe
realmente. Há apenas alguns casos – sobretudo no plano económico (o que, por si
só, é significativo) – em que essa política externa aparenta existir. Mas,
quando se chega ao terreno realmente político, logo as nações europeias (as
maiores, sobretudo) divergem: seja porque a sua vocação história é mais marítima
ou mais continental, seja porque os seus interesses estratégicos estão mais a
norte, a sul, a este ou a oeste, seja, sobretudo, pelo respeito à sua história.
Como costumamos dizer, “os países europeus têm demasiado passado para poderem
ter um futuro federal”.
A recente intervenção
francesa no Mali (que não vou aqui discutir) é bem o exemplo de como a França
terá sempre uma política própria face aos países francófonos (e faz muito bem,
comento apenas). E o mesmo se diga da Grã-Bretanha perante a “Commonwealth”. E
só lamento não poder aqui acrescentar o exemplo de Portugal porque, a meu ver,
Portugal não seguiu esses bons exemplos – antes desprezou, nas últimas décadas,
a relação com os restantes países e regiões do espaço lusófono, o que, a meu
ver, é uma das razões maiores, senão mesmo a razão maior, da situação de extrema
fragilidade em que hoje estamos. Foi, para usar um qualificativo da moda, um
“colossal” erro geoestratégico que estamos agora a pagar. Não contestamos, para
que fique claro, a nossa entrada na então Comunidade Económica Europeia. O que
contestamos é a forma como entrámos e o modo como nela nos temos mantido.
Chegados aqui, e apesar de
acompanhar o Viriato Soromenho-Marques na justa crítica que faz à “elite
governativa incompetente, venal e medíocre” que temos, não há milagres. Nem o
tão aclamado Jacques Delors, se hoje tivesse o cargo que teve, o conseguiria. De
resto, foi Delors que enunciou a teoria (a célebre teoria da bicicleta, que cito
de memória: “a Europa é como uma bicicleta – ou avança continuamente ou cai”)
que nos levou a este beco sem saída. Como se não fosse justamente o contrário:
entre os povos, como entre as pessoas, muitas das relações subsistem porque não
se aprofundam (se se aprofundassem, deixaria de haver relação). Esse é, de
resto, o risco que agora corremos. Se a Europa se tivesse mantido como um mero
espaço de cooperação económica, como nunca deveria ter deixado de ter sido
apenas, não se falaria agora do risco de desagregação. Com a fuga em frente em
prol da “União Política” é que podemos correr esse risco. Se bem que, a meu ver,
a inevitável desagregação política não porá em causa a cooperação económica.
Esta acabará sempre por se manter, desde logo por razões de proximidade
geográfica.
E não se diga, para
finalizar, que é a impossibilidade de uma real união política a causa do menor
sucesso económico da Europa. O declínio económico europeu seria sempre
inevitável face à igualmente inevitável emergência de novas potências. Não seria
o federalismo europeu que iria manter a hegemonia europeia sobre o resto do
mundo. Com a generalização da tecnologia, a cada vez maior concorrência global,
a nossa perda relativa de competitividade e a nossa consequente
desindustrialização, esse declínio era realmente inevitável. Há, pois, que
encará-lo com toda a naturalidade, procurando, tão-só, minorar os danos. E
deixarmo-nos, de vez, de ilusões: o relativo sucesso económico europeu na
segunda metade do século XX, que levou alguns a alimentar a quimera do
federalismo, deu-se num contexto muito específico. Não só económico como,
sobretudo, político: ora, já não existe a “ameaça” do gigante soviético e a
Alemanha, naturalmente, já não aceita ser o anão político que foi durante esse
meio século. Sejamos, pois, realistas. Em geopolítica, não há milagres.
Com os melhores
cumprimentos
Renato Epifânio

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