O REGRESSO
Saíra.
Não curado (alguma vez o estaria?) mas pelo menos agarrara-se aos sucedâneos e não à matéria-prima.
A ver.
E devia preencher o tempo. Como por exemplo naquela manhã de Sol, a luz clara a fazer vir mais ao de cima a opacidade de tudo.
Enfim!
De qualquer modo estava a caminho e ia entrar. Visto por fora pareceria um glorioso regresso; observado por dentro era mais uma viagem: nem saudade nem memória. Mas sim, voltava ao seu pais. Seu...
A última boleia deixou-o na fronteira. Um grupo rodeou-o:
- Recusaste a guerra? És um exilado? Assina aqui!
Ilídio devia os seus dez anos de vida não burguesa a Salazar. Ele obrigara-o a trocar a casa e os bons cuidados familiares por um quarto miserável numa mansarda parisiense e a suportar uma carga de trabalhos forçados para pagá-la. Ilidio não sobrecarregara a familia - monárquica e conservadora - com as consequencias da sua recusa em ir à guerra mas não esquecia os sacrificios a que ela o obrigara. Ele, a quem no seu meio chamavam "o príncipe", até retretes havia limpo! Deposto o regimen e com o devir da história a dar-lhe razão, chegara o momento do ajuste de contas. Repetiu para o estranho:
- Vens do exílio? Assina aqui! A união faz a força!
Olhou o papel a passar de mão em mão. Uma folha azul cada vez mais sebosa. O título indicava: "Nós os refugiados politicos..." O outro argumentava:
- Temos direito a uma indemnizaçao! Não fomos emigrantes voluntários! Obrigaram-nos a deixar o país!
Que fazer? Que tinha a ver com aquilo? Desejava tanto que o deixassem em paz! Mas, à sua volta todos pareciam tomados de peste verborreica que os obrigava a falarem e retrucarem à menor palavra ouvida, dando a impressão de que discutiam desde há dias, sem paragem nem conclusões. Não as procuravam aborrecendo-se se as encontrassem?
O da folha insistiu:
- Assina! A união faz a força!
Se tudo dependia de uma rubrica qual o problema? Colocou-a no papel e deixaram-no quieto. Era o seu desejo: não mexer, não fabricar coisa alguma e nem mesmo pensar. Talvez fosse a morte mas não importava
Retomou a estrada e a boleia.
Um carro.
- Agora é que vamos ver para onde é que a gente vai! Sim, agora é que vão ser elas! Isto por enquanto é muito bonito mas não tarda os americanos vêm por aí abaixo. A esquadra da Nato está a caminho. Eles não querem perder esta base, é o que lhe digo.
Júlio, camionista há trinta anos e antes mecânico. De uma coisa a outra não era um grande passo e o que, mesmo assim, dera, condizia com o seu gosto de andar devagar mas seguro. Um caracol não derrapa. Gostava de dar boleia porque a presença de alguém ao lado distraía-o. A mulher dizia: "olha que é perigoso, não metas estranhos na camioneta". Não fazia caso: o macho serve para o risco e a fêmea para a conserva. Por isso o saco da reprodução fica nela. Sabem tratá-lo. No fundo, na oferta da boleia há isso: o desconhecido, o risco. Fala-se e depois adeus, é como confessar um segredo a um poço: as palavras vão com o vento, não se revê o nos ouviu e desembuchou-se, disse-se o que havia por dizer. Se bem que, com a mudança no país, dar boleia fosse já um dever. Nas novas circunstancias nada significava o mesmo. E era isso: as coisas.... como dizer? Excediam-se? A própria mulher...
- Lá em casa, por exemplo, a minha cara metade, que toda a vida foi uma pessoa sossegada e obediente, sabe em que é que me falou um dia destes? No divórcio! E isto a propósito do tabefe que lhe dei! Tantos que já levou, santo Deus! O divórcio!
Fazia "hum... hum.... ou pronunciava um "pois..." mas, sobretudo, entretinha-o a paisagem. Regressara pelo sul e, desde que partira, era como se tivesse passado muito tempo. Apenas dois anos...
- Ah, e ela agora diz que quer tratar das suas coisas e pois que é dona de casa reune com as vizinhas sei lá para quê! Ja me falou em reeducação dos maridos! Tem piada, não tem?
Do lado de fora dos vidros que os protegiam do vento, a paisagem havia de facto mudado: no meio do campo, por cima de um portão escancarado, um cartaz tosco, rabiscado numa caligrafia gigantesca e vermelha anunciava:
PROPRIEDADE OCUPADA PELOS TRABALHADORES
O camionista apontou-o:
- Acho bem! Mas também pergunto: saberão eles tomar conta daquilo? Têm eles a sabedoria para isso? Estará a gente a ir pelo caminho certo afugentando os ricos? Olhe os meus filhos, os meus filhos são dois e nunca me deram problemas mas vá-se-lhes perguntar o que pensam disto! Um dirá que o partido dele é que tem razão, que somos uns "reaccionarios" e não sei que mais, de tal modo que nem o entendo, e ela começa logo a esbaforir — apesar de tudo não pode ter sido a mãe, então seria o fim! — que ter filhos é uma escravatura e o bom é que eles nasçam em laboratórios! Não é de doidos? Eu a príncipio, como disse, achava bem e mesmo necessario mas agora...
As coisas iam depressa demais e não havia tempo para digeri-las. O caracol quando chegava ao sítio já a paisagem mudara, deixara de ser o que era. Assim...
- Em casa é a confusão, percebe? Ninguém se entende! Perdemos a paz! É isso: perdemos a paz! Era pôdre, sim senhor, mas era uma paz e sabiamos com o que contavamos, os tabefes que a mulher aguentava e a gente vivia. Agora...
Calou-se.
As mãos no volante como se a ultima coisa que ainda possuísse ou obedecesse. E receasse perdê-la. Tudo se tornara problemático e até o clima havia mudado: a prova estava naquele Agosto a ameaçar chuva! - E na fábrica da cerveja elas querem o mesmo salário que os homens! As mulheres querem ganhar o mesmo, 'tá ver? Por um lado, é justo, claro, mas depois, em casa? A família? Deus não fez primeiro o macho?
O motorista falava de "motu proprio" e dispensou os "hum...hum..." que ainda pronunciava. Tanto melhor. A medicamentação adormecia-lhe as reacções e reagia como um sonâmbulo. Talvez fosse possivel dizer que apenas existia. Isso: existia. No entanto perguntou:
- Onde vamos?
- Perto de Montemor. - e ele retomou: - Os governos nem se aguentam! Qualquer dia até sou ministro! Mudam todos os dias! É o pandemónio! Sabe o que o comunicado da Junta ontem dizia? Que não apresentava uma análise clara da situaçao por falta de dados! Nâo é de loucos? E um jornalista francês que transportei, achava o país um manicómio em auto-gestão. - Fez uma pausa. - O Salazar bem deve andar às voltas na tumba! Não sou salazarista mas assim não! Liberdade é boa mas sem excessos! Sabe, este povo nunca foi livre e agora... Além de que, diga lá o que é que ele fez para se libertar? - Olhou o pendura nos olhos: - Tudo isto saiu de um golpe, não é verdade? O Otelo sim, o Otelo sabia o que estava a fazer. - Outra pausa. O tom grave: - Ou se calhar não! Que acha?
Pensou no personagem shakeaspeariano mas não podia ser, o outro não falaria por metáforas. O homem insistiu:
- Ãh, que lhe parece?
- Ele?
- Sim. O Otelo Saraiva de Carvalho! - Não lhe passava pela cabeça que o pendura ignorasse o nome do estratéga do golpe - Ouviu a entrevista onde ele disse que devia ter metido uns tantos no Campo Pequeno?
- Ah sim?
- Pois! Depende de quem para lá fosse... Vamos tomar um café?
A ideia era óptima. A bebida não o seduzia mas, pelo menos, daria aso a um intervalo naquele matraquear contínuo de palavras. Tão distante do que o outro contava como se nascera noutro planeta. E já nele, a unica coisa a preocupá-lo fora a dose diária. Picar-se, picar-se continuamente num prazer carnificino de ver a agulha entrar e a seringa coalhar-se de sangue, sinal de que acertara, que atingira a veia e poderia carregar no embolo até ao fim. Picar-se, picar-se exaurindo-se nisso.
O automovel parou no largo de uma aldeia. Transviado pela memória do "flash", nem daria por que tinham abandonado a estrada principal. Boca seca, o aperto na garganta, o coração aos solavancos e o corrimento dentro do corpo, como se se diluisse. Tentou ancorar-se no concreto, no rossio onde o veículo estacionava, aqui e alem preenchido por camponezes que discutiam. Gente a falar como por todo o lado... Um altofalante transmitia aos sacanões música de bailarico
- Há ali um bar - apontou o camionista a porta escancarada de uma loja.
Enquanto saiam do carro, meteu dois calmantes na boca. Tinha de deixar de ser mazoquista. Impedir que a memória o transportasse ao outro lado das coisas. Dificil. Mesmo muito dificil. Mas não impossível. Para se fortalecer disse-se: "Estou cá. Desta feita estou cá. Para sempre!"
- Há festa? - perguntou o condutor a um homem que passava.
- Festa?
Ele não sabia? Donde vinha? Não ouvira o noticiário? Ainda não tinham transmitido o resultado, talvez fosse isso...
- Foi o julgamento...
- O...?
- Do Zé Diogo!
- O assassino?
Arrependeu-se. Não conhecia o sitio e no olhar do aldeão leu de imediato a animosidade. Aliás ele já dizia:
- Assassino, não! O homem ficou inocente! O tribunal popular absolveu-o. - A boa vontade para com as visitas deu lugar à desconfiança e outros, que olhavam os forasteiros, aproximaram-se. Confortado pela proximidadde dos conterraneos Ezequiel, jurado no tribunal do povo que tinha sentenciado o Diogo, repetiu os argumentos da defesa - O Diogo matou um latifundiariol O sacana do Ginja! Durante anos e anos ele e a família exploraram os nossos! Engordavamo-los de Sol a Sol enquanto eles se pavoneavam pela estranja! Qualquer um daqui faria o que o Diogo fez! Absolvemo-lo por unanimidade! - O ex-jurado apontou alguém de costas, no fundo do largo, figura espadauda mexendo as ancas no acompanhar da música: - Lá está ele! A nossa terra deu o exemplo!
Fez-se silencio como se no grupo rodeando a camioneta houvesse lugar à pergunta "E agora? Que fazemos com estes? " Mas alguem gritou "Fora com os juízes da lei burguesa! " e o conforto de quem está em casa, seguro de si e que por isso se dá à generosidade, substituiu a desconfiança. Na alegria de novo instaurada outros gritaram:
- Viva a democracia directa! O povo é quem mais ordena!
Os camponeses deixaram-nos sós, como quem abandona à sua sorte aqueles a quem avisa do que lhes reserva o destino se desobedecem e, de longe, sem manifestações de animosidade mas tambem sem pena, viram-nos reentrarem na camioneta e desandaram. Se não estavam com eles que fossem embora.
Longe da aldeia o condutor voltou à carga:
- Vê por onde isto vai? Eu não digo? Aposto em como o meu filho quando souber do caso, vai dizer que está tudo bem! E a rapariga o mesmo! Ainda teria familia?
Mais calmo, devido ao efeito das pastilhas, indagou:
- A camioneta é sua?
- Minha? Não senhor! Trabalho para um patrão! Olha minha! Se ela fosse minha! - A hipótese bailou no ar como uma odalisca a contorcer as carnes numa dança de ventre. Se a camioneta fosse sua... Bom, empregaria um ou dois homens, ele mesmo tambem andaria com ela e.. enfim, seria o primeiro transporte, depois outro, talvez a frota, o investimento noutros negocios, a compra de prédios aqui e alem... Olhou o pendura como se o responsabilizasse pelo sonho - Bom, se isto fosse meu outro galo cantaria... - Consolou-se: - A gente vai mas tem de ir devagar... O caracol a segregar o próprio percurso com a lentidão das coisas bem feitas, as antenas no ar a vibrarem à menor suspeita, ao mais pequeno aproximar do perigo, a casa sempre à mão e o esconderijo possivel. O caracol Ilídio, agarrado à sua parede e aos seus pertences, senhor do seu lar e engordurando o tempo, a própria morte morrendo-o lenta e anunciando-se, nenhuma surpresa, nenhum salto, nenhum abismo. Hábito. Apenas. - Sou um trabalhador consciencioso, não faço como esses que andam agora a pedir mundos e fundos! A gente vai mas vai devagar. O meu patrão confia em mim! Hoje vim de junto da França, lá ao pé da fronteira! Julga que mandava lá outro? É mesmo o padrinho da minha filha. - Calou-se. Todos falavam na construção do presente e ele perdia-o. A mulher... os filhos... O desnorte... Quem seria o pendura?
- É de Lisboa?
Que responder? Sentia-se dalguma parte? Outrora... Sim, outrora fora de um sítio preciso, tivera pais, família, recordações. Mas depois? As nuvens tinham coberto a luz, o céu escurecera e o Sol desaparecido. Porquê? Não sabia. Mas sumira-se o miúdo pacato e feliz, cuja vida parecia a direito. Ou fora ele próprio que motivara isso tudo, nas vezes sem conta em que, preso à menoridade, se dissera "ah quando for livre e fizer o que me apetece!" Afinal... O reino do desejo, a entrega ao momento seria possível sem que trouxesse consigo a decomposição ou a decadencia? Se tudo tende para a putrefacção a maneira rápida de atingi-la não será através da livre acção da natureza, deixando as coisas serem o que elas proprias desejam? Se a mudança é a norma e a morte o passaporte... Os pais tinham perecido num desastre, a parente que o recolhera também falecera e, com vinte e três anos e quatro de droga dura, tentava libertar-se, regressar a este lado. Mas viver nele como era? Se nem os que nunca o tinham abandonado o percebiam... Reaprender com quem? Lisboa... Seria de Lisboa? No fundo, de tanto ser de toda a parte não era de nenhuma e a solidão advinha-lhe da própria cosmicidade. Entre ele e o mundo que havia? Mas devia responder qualquer coisa, até porque era a sua oportunidade de falar, de meter algumas palavras de sua lavra no discurso que o outro ainda não abandonara, como se com medo de ficar a sós com o silencio, consigo mesmo ou com ele, António.
- Sim, sou de Lisboa.
- Cá por mim sou de Rio Maior. Foi 1á que aprendi tudo.
A rua onde brincara com os outros catraios, o primeiro emprego. A infancia esvaira-se como mercurio que se derrama em mil bolinhas independentes umas das outras, autonomas, frias. Se pudesse voltar atrás, estender o corpo pelo tempo que não tivera, babar-se, enfim... Lembrou o convite para o café - Ai pelo caminho encontraremos um tasco calmo. - Na estrada surgiu um letreiro a dizer BAR e pararam.
Sonhei com avestruzes e não sei o que significa, talvez a Natércia saiba quando ela regressar da cidade pergunto-lhe, a ver se não esqueço o sonho... Mas eram avestruzes ou papagaios? Rolas? Que disparaté...A cabeça a queixar-se das patadas, do cacarejar - as avestruzes cacarejam? - o Sol a murchar, o calor... felizmente corre uma brisa... talvez amanhã haja nuvens, um reposteiro frente ao Sol... tanto calor! "É so um momento se faz favor!" pôs para um lado o caixote, deitou a mão à bilha que se desiquilibrava e gritou para a loja "Já vou"
Com o cansaço pendurado na cara - arrumava e desarrumava desde que se levantara e eram as seis da tarde - apareceu atrás do balcão.
Dois homens, um mais novo que o outro e deu logo a novidade que ouvira no rádio:
- Rebentaram com a sede dos comunistas em Rio Maior! Queimaram os jornais que iam para la. Dizem que só levavam mentiras.
O mais velho:
- Feriram alguém?
- Não. Foi de madrugada. Estava tudo deserto. Mas andam em polvorosa por aqueles lados
- Dois cafés, se faz favor.
Virou-se para a máquina e continuou:
- Em Lisboa temem um golpe. - Há patrulhas na estrada a revistarem os carros. - Pôs as chavenas para as bicas - Têm medo que transportem armas.
O mais velho ainda (o outro seria mudo?):
- Iremos para a guerra civil?
O Chico da Peninha a entrar e já a responder:
- Cá por mim tudo bem! Não quero viver de rastos! Aquilo foi o ELP! Eles não suportam que a gente tome a vida nas mãos! Querem-nos escravos! Um bagaço, ó Maria!
Maria era ela, nunca dali saira - salvo um dia em que o Salazar pagara a viagem a Lisboa para fazerem uma manifestação - e não gostara da capital, era grande, as pessoas perdiam-se. Ali era melhor.
As bicas em cima do balcão e o cálice vazio para a aguardente, deitou-a no copo.
Durante algum tempo houve silencio - ela a pensar outra vez nas avestruzes - e ouvia-se o zunir das moscas. Nunca paravam as pobres! Mas ia vir um mosquiteiro, dos eléctricos, fazia parte das suas mudanças, c' os diabos!
- Está bom, sim senhor... - O Chico lambeu os beiços, os outros acabaran os cafés, todos pagaram e desandaram.
Há muito tempo que não fazia arrumações, e o sonho a atormentá-la, nunca sonhara com avestruzes... Ah sim, e o mar, tambem havia o mar... Tambem nunca sonhara com o mar... Que significaria?
O camionista evitava os caminhos principais. Fugia às barricadas? De qualquer modo calara-se. Mas se queria evitar maus encontros, ia tê-los: cem metros adiante, na pequena estrada por que haviam enveredado, soldados e populares mandavam parar.
- Não escapamos! - resmungou.
Que aconteceria? A ideia de ser acusado de cúmplice de um qualquer golpe não inquietou António. Tinha o tempo por sua conta. Apesar do distanciamento provocado pelos suporíferos o raciocínio funcionava. Mas acreditariam que não passava de um pendura? Retê-lo-iam para investigação? "Em tempo de revolução não se limpam armas" Que se lixe! Outra pastilha na boca.
Ruas servira na GNR salazarista cinco anos e outros tantos lá estaria se não acontecesse aquilo. Não porque dedicasse especial aténção ao regimen mas era um funcionário e o resto não lhe dizia respeito. Treinado para obedecer, maçava-o quanto fosse alem da sua estrita competencia. Não tinha feito para elucubrações ou filosofias. E, especialista em explosivos, esperava pela trela a ordem de entrar em acção. Infelizmente naquela manhã acordara constipado e o nariz, mais húmido do que o costume dava conta da sua latismavel situação. A condizer com o dos soldados que o acompanhavam: ninguém ali dormia há umas vinte horas. Um carro partia e outro vinha. E a rendição? Quando chegava?
Manuel dirigiu-se aos passageiros da camioneta:
- Os senhores desculpem mas...
- Na voz a solicitação mas tambem a ordem. Filho mais velho de um casal de operários, ha um mês na tropa quando sucedera o golpe. Nunca mandara em ninguém mas era o que em sua volta agora lhe exigiam. Cumpria.
- Isto é que é a liberdade?.
A voz do caracol esganiçou-se. Como se já nem ela obedecesse, dali para a frente ora aguda ora grave, a seu belo prazer, autonomizada no processo que o país vivia e mandando o proprio dono á fava! Tanta coisa que nunca dissera! O dificil fora começar, pronunciar as primeiras palavras mas perdida a timidez e adquirido o hábito, parar era a dificuldade...
- Não se amofine! - acalmou-o Rui, o soldado que segurava o cão. - A gente apenas quer evitar algum acto tresloucado da direita.
Um pouco mais atrás, os populares, em semi-círculo, rodeavam o grupo como uma rectaguarda que entra em acção quando a frente corre perigo, ou para convencer melhor o inimigo.
- ... Temos que ver o que levam na carga - concluiu Manuel. Mandar em burgueses ainda fazia impressão e por vezes era como se sonhasse. Mas há situações - dissera o capitão antes de deixá-los na estrada sozinhos - em que, ou estamos à sua altura, ou elas nos engolem.
- Isto é aborrecido mas temos de impedir que metam armas em Lisboa. - justificou Rui. Os camaradas devem perceber que a liberdade neste momento não pode ser para todos. Camaradas... ruminou o condutor. Camaradas... O soldado atiçou o cão: - Busca! Busca!
Ruas, contente por receber serviço, saltou para cima da carga. Batatas! Eram batatas! Algo que não apreciava! E com o pingo no nariz... Há dias em que...
Rui a explicar:
- A gente está numa revoluçao. Temos de ser cuidadosos. Devemos arrumar a casa.
Ruas, apesar do enjoo que a visão dos tubérculos lhe causa, acaba a inspecção com um sorriso de "obra acabada". A não ser que o nariz o engane não há ali pólvora! Manuel faz-lhe uma festa e despede os forasteiros.
- Pronto. Tenham uma boa viagem, camaradas.
Camaradas...
Os populares, até há pouco de semblante cerrado, rodeiam descontraidamente o veiculo. A máquina toma velocidade e um dos homens da barricada, com uma palmada nas costas do soldado João, comenta:
- Aqueles também não levam armas.
- 'Tá ver? - disse o motrorista andados umas centenas de metros. Os comunistas dominam tudo! Saímos de uma ditadura para entrar noutra! E os americanos acabam por intervir! 'Tá ver, Portugal, as bases, 'tá ver?
Não via nem queria saber!
Mas o condutor abriu o livro do general Spinola, postado à vista no "tablier" e da caixa que ele era, sacou um revolver:
- Homem prevenido vale por dois. Comigo ninguém brinca! - babou-se o caracol.
Ruas estava de facto constipado. Ou era a saude a exigir reforma?
Augusto entregara a vida a principios que os homens e mulheres ditos de bem honoram mas, em regra, não seguem. Ele, praticando-os, não poucos inimigos fizera: à manada desgosta a ovelha tresmalhada. Quando na estrada avistou Antóno ouvia o noticiario na frequencia que a sua igreja detinha. Fossem os tempos outros e ela não o transmitiria daquela maneira. Mas por isso se deslocava à capital: o emissor tinha sido tomado pelos trabalhadores. Levado pelas reflexões do caminho desabafou com aquele a quem ofereceu boleia:
- Bem vê! A cada contingente de tropa que o governo envia para expulsar os ocupantes, terminam todos a gritar "o soldado é amigo do povo!" Confundem tudo, percebe?
Tambem não gozaria de silencio naquele carro: o padre estava possesso da febre verbalizadora de quantos encontrara desde a fronteira. Os calmantes, porém, surtiam efeito e já não se sentia inquieto.
- O que se passa neste momento é que não há segurança nem possibilidade de velar pela ordem publica! As pessoas fazem o que lhes apetece. É a anarquia! — Com a mão no volante e servindo-se da outra para tirar do "tablier" um jornal, Augusto entregou-lho dobrado numa página. António tomou-o e o condutor apontou a notícia da missa por alma do papa João XXIII. - Veja, veja se não é um escândalo? Este país é e sempre foi catolico. Como se entende isto? Ha lá direito de anunciar uma coisa destas na página dos espectáculos e entre "slogans" publicitáiios?!
A noite anunciava-se quente, o carro aguentava o péssimo estado da estrada e dali a algum tempo entrariam em Lisboa. Antonio já 1á não ia desde que ingressara na clínica. Nesta, para esquecer a carencia, levavam-se os pacientes ao extenuamento: tanto abriam de manhá uma cova de seis metros como, à tarde, a fechavam. Uma metáfora do trabalho humano, da luta que o homem enceta contra o pó? Em todo o caso o toxicómano António sujeitara-se a erguer e deitar abaixo, como quem do esforço apenas espera o cansaço.
- Deixa-me chutar contigo.
- Porque?
- Quero saber como é. Quero escrever sobre isso.
Ignorava o resto da história: perdera-se nela e ainda não encontrara a saída. Tornara-se na sua própria escrita? Mas só Antonio lia António e o circuito fechara-se: arte muda.
Missao falhada.
Augusto perguntou:
- Acredita em Deus?
A questao surpreendeu-o. Lá atrás, em adolescente, agarrara-se a Cristo como náufrago que não vê outra salvação. Na solidão que se seguira à morte dos pais e ameaçara sorvê-lo, o Profeta fora a gaze a retardar-lhe a entrada no nada. E quando Sísifo se apresentara, brilhante e irrefutavel, estava preparado: aprendera a passar o tempo, percebera que, embora morresse, podia no entretanto acumular entretimento. A esturdia, as directas, a vadiagem. O desespero. A ideia de escrever um livro surgiria como quem, ao perder-se, espalma na parede o gesto salvador. Mas o desejo de fazê-lo sobre drogas duras - ou o pretexto para se apagar definitivamente o traço? - em breve o arruinaria: na caverna, nem uma linha. Acreditava? Seria a sua uma das consciências do universo? De qualquer forma algo teria dado origem a tudo e, em ultimo caso, a continuidade seria o motor. No fundo, queria crer, e era mediocremente humano.
- Acho que sim.
- Pois é. Isto está mau. As ovelhas andam tresmalhadas, é cada cabeça sua sentença e ninguém se entende. Quem acha o senhor que vai mais depressa? Um cavalo com um ou dois focinhos?
O da dupla, ao inicio talvez fosse mais devagar, mas teria menos possibilidade de erro. Porém, percebendo no condutor a preferencia pela primeira hipótese, não o quis contrariar. Respondeu "pois" e foi deixado em paz. Em paz... Urgia tomar decisões, saber aonde ir. Regressaria? Iria escrever o livro? Mas qual a sua importância? Palavras... Palavras... Palavras... Todavia a experiencia da droga esgotara-se, tornara-se num bem que o habito anestesia. Continuar? Para quê? Por incapacidade de mudança? Por vício? E aonde buscar o dinheiro para satisfazê-lo? A decisão da cura não surgira no dia em que, desbaratada a herança dos pais e logo a da tia, se vira numa cama trabalhando para a dose diária? O dinheiro que lhe tinham dado à saída da clínica chegava apenas para o aluguer dum quarto, se é que tais coisas se faziam no novo estado delas...
Chegavam a Lisboa e da ponte até há pouco baptizada de Oliveiria Salazar avistaram a capital. O rio ficou para trás e a noite caia.
- Desce aonde?
- Por onde passa?
- Marquês de Pombal, Avenida, Rossio...
- Se não se importa fico no Rossio.
Porquê? Não sabia. Talvez porque fosse aí o velho centro e desde há algum tempo que tentava o regresso ao meio, à origem, ao ponto equidistante do circulo, como quem volta ao lugar que conhece para, em seguida, referenciar os demais. Perdera-se e urgia a nascente, a fonte...
Leu as horas numa placa luminosa: vinte e três. Como o condutor dissera, cruzada a Rotunda, desceram a avenida. Nesta, mais ou menos a meio, um palacete ardia. Amortecida pelos suporíferos a carga dramática dos acontecimentos, o pendura viu o sinistro na sua dimensão estética: as chamas fascinaram-no. Quis olhá-las melhor e pediu ao condutor:
- Se não se importa fico aqui.
Augusto estacionou a viatura. Pelo entusiasmo da multidão em torno do fogo, intuíu não só que fora posto mas tambem, pela ausencia dos bombeiros, que eles teriam recebido ordem de não intervenção. Quase apostava de que deus... Mas a reunião para que se deslocava começava cedo na manhã seguinte e não tinha tempo a perder. Alias a função de um padre é apagar fogos e não deleitar-se neles. Há na paz o sabor da cinza mas ela vem da luta que se suspende ou lentifica porque ela é o reino do consumo lento: de longe as estrelas parecem pacíficas. Augusto despediu António e, referindo-se à multidão rodeando o sinistro, comentou:
- Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem!
O pendura achou a frase própria do homem que acabava de lhe dar boleia e compreendeu-a. As coisas estavam certas.
A cédula de nascimento de Joel, no lugar da filiação reservado ao pai, dizia "incógnito" e durante tempos essa fora a sua maior questão. Os outros tinham pai e mãe e ele... Bom, ele era de "pai incógnito". E quanto à mãe.... Que sabia? Na altura do seu nascimento andava ela no campo, viera uma daquelas tempestades que, de um momento para o outro, apanham tudo desprevenido, mas lembram a nossa pertença ao reino das coisas e zás: um raio fulminara-a. O cão de um médico que andava na caça é que tinha encontrado o cadáver e o homem, abrindo a barriga da grávida com a faca de mato, salvara a criança. Ora que não ha-de pensar das suas origens quem assim anasce? Quando Joel, pelos seis anos, soube da sua história e, entrado para a escola, viu no lugar reservado ao nome do pai a palavra "incógnito" - e a professora lhe disse o que significava - confirmou o que sempre suspeitara: ele, Joel, pouco devia aos demais. Ou seja: a mãe morrera do raio que o dera à luz e ele era, pois, o filho do Fogo. Mas guardou o segredos e só falou no assunto no dia em que, apanhado em flagrante sacrificio, um polícia de serviço, com modos mais que humanos, lhe exigiu a verdade.
- Porque incendiaste o bosque? Alguém te pagou?
- Sou filho do fogo, compreende? - explicou na voz do principe que, finalmente, levanta o véu da sua identidade.
- Como?
Em acordo com o mandamento que manda honrar pai e mãe ardeu, pois, um precioso parque natural e da esquadra Joel foi para o Júlio de Matos. Infortunios dos grandes deste mundo - consolou-se o infeliz! Mas no dia em que uns tantos, numa acção "libertadora", mandaram os doidos de volta às ruas, o nosso deus saíu e não mais voltou. Na avenida da Liberdade, incógnito no meio dos seus adoradores - ou não aprendesse à sua custa que a divindade não se revela a toda a gente - Joel embebia-se na labaredas que consumiam a embaixada de Espanha. Restava a fachada mas seria por pouco tempo. A verdade vem sempre ao de cima. A populaça gritava:
"Morte a Franco! Morte a Franco!" e protestava contra a condenação ao garrote de um condenado basco, aprazada para as sete horas da manhã seguinte.
Esgotado o usufruto estético do evento, António, achou-o monótono e igual a qualquer sinistro do género. Deixou os manifestantes e desceu a pé o resto da avenida.
Com a mudança política o Rossio, o largo central da baixa lisboeta tinha-se tornado num mercado e no "ágora": de dia acorriam dezenas de vendedores ambulantes e, a toda a hora, grupos de cidadãos, disseminados em pequenos grupos, discutiam as novidades políticas. Os menos interessados na "respublica" juntavam-se no pedestal da estatua. Aí fumavam haxe, alucinavam, tocavam musica e, principalmente, preocupavam-se com pequenos nadas, em torno dos quais erguiam os respectivos quotidianos. Antonio, cansado da viagem, lá estendeu o saco-cama. Na igreja de São Domingos deu a primeira badalada da manhã e ele adormeceu.
Clareava fora da cela e o carcereiro Alvarez, de serviço no "corredor da morte" desde que Franco o inaugurara, abriu a vigia incrustrada na porta:
- Prepare-se se faz favor! - Adormecera graças ao forte suporífero que o guarda lhe tinha dado na vespera e olhou a luz que se intrometia pelas grades: o seu ultimo dia!
- Prepare-se se faz favor!
O carcereiro prevenira-o que o calmante tinha efeito prolongado e que, apesar da agenda sobrecarregada do dia seguinte, acordaria bem disposto.
Devagar como quem saboreia uma bebida, utilizou a minuscula casa de banho da cela e vestiu-se: para quê revoltar-se contra o inevitável? Ao fim e ao cabo tinha de morrer e, pelo que constava, a pena capital era antecedida por uma pródiga dose de morfina . Talvez nem desse pela passagem. No limite seria um morto pensando-se ainda vivo... Mas as palavras que Platão atribui a Sócrates animavam-no: "se houver vida no alem-túmulo não a temo porque regi a vida pelo Bem e se ela não existir a questão não importa."
O carcerreiro reapareceu e com o ar solene (c' os raios, era a ultima refeição do prisioneiro! Convinha dar-lhe a devida importancia!): perguntou
- O que deseja para pequeno-almoço?
O apetite era nulo. Seria do efeito eufórico do calmante que, inclusive, esquecia a fome, tornando o humano apto ao desfrute do mundo em vez de seu dependente? Que não seria possível a uma sociedade na qual o estômago não clamasse por alimento? Tal significava que, se se desejassem homens e mulheres independentes a satisfação da fome seria o seu primeiro direito. E o dever? Trabalhar para que tal fosse possível. A insistência do carcereiro na questão do pequeno-almoço interrompeu as especulações do prisioneiro.
- Pode escolher o que quiser... - dizia o homem.
À semelhança de Franco, o seu algoz, que no palácio governamental tomava a primeira refeição e iniciava mais um dia de ditadura, assim o condenado comeria do que entendesse para gáudio do seu recem-acordado estômago.
- Prescindo da refeição - foi a resposta.
Se o tempo escasseava e não sentia apetite, para que gastá-lo com o desnecessário? Alvarez, veterano da guerra civil, ouviu a recusa e retirou-se. Guardara tantos condenados que nem os lembrava mas aquele... Comovo-me, já não presto mas ele é tão indiferente à morte como eu o fui. É um herói, duma causa inutil, sem duvida, transviou-se no caminho mas não deixa de ser um herói e seria o pior dos homens se não o reconhecesse. Parece-se comigo quando tambem tinha vinte anos: a firmeza da fala, a altivez do olhar... E agora? Como vejo? Amorteci. Guardo a vida mas não a vivo. Carcereiro...
O condenado tinha uma carta a escrever e sentou-se à mesa formada pelo parapeito de pedra que, de um dos lados do cubículo, sobressaía da parede. Para lhe evitar a frieza estendeu um jornal sobre a laje e virou do lado contrário a página, cuja parangona, em letras bem gordas, dizia "Bem feito!", referindo a sua execução para aquela manhã.
A luz da lâmpada pendurada no tecto ia-se tornando pouco a pouco inutil com o Sol invadindo a cela. A carta que queria redigir era para a namorada promovida, pelos acontecimentos, a noiva quando, ao dia da sua prisão - há dois anos - ele e Cacilda levavam de companhia apenas uma semana. Mas a defesa servira-se dessa relação para tentar (sem efeito) comover o juiz. De qualquer modo ele e Cacilda haviam mantido, ao longo do processo, uma correspondencia exemplar: devia-lhe resposta e começou-a:
"Querida Cacilda,
Só agora tenho algum tempo disponível para responder à tua ultima carta. Sobre o desgosto da minha partida não sei como possa consolar-te. Digo apenas que o mundo não me falta e que, cumprido o meu papel nele, parto sem pena. A loucura de minha mãe pesa-me mas, no dia em que anunciaram a Jesus "tua mãe e teus irmão estão lá fora e querem ver-te" não respondeu ele: "Minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática"?
Quanto ao nosso romance ele nunca chegou a sê-lo. Não nos deixemos influenciar pelo que as campanhas em meu favor disseram.
Existi para lançar uma bomba e ser condenado por isso. Dizem que matei inocentes, que crianças morreram por minha culpa. Não o desejava mas lembremos também as que a cupidez vestida de fraque todos os dias condena á prostituição, à doença e à fome..."
Acabou a carta e pô-la de parte em cima da laje. Ouviu passos no corredor e estremeceu. A porta da cela escancarou-se. Por detras de carcereiro havia um padre.
- Posso, meu filho?
Os acontecimentos tomavam-no. Perdia-lhes o controle. Era a falta de tempo? O já não ser o seu senhor e portanto de si? Olhou o cura e o homem insistiu:
- Podemos falar, meu filho?
As figuras que o tinham seguido nos gestos mais arriscados, nos actos onde a vida lhe estivera mais em perigo, Spartacus, os irmãos Graco, Rosa Luxembourg, perfilavam-se por detrás do confessor, vendo como reagiria. A luz desligou-se e a do Sol tomou definitivamente conta da cela. Com espanto, percebeu mais alguém no grupo dos que o acompanhavam naquela alvorada: Cristo, o igualmente condenado Cristo. O prisioneiro sorriu-lhe e despediu o cónego:
- Agradeço os seus serviços mas dispenso-os, padre. - Olhou ainda o grupo e concluiu: - Morrerei só.
- Ninguem morre só mas no meio dos seus actos. Estes, ou influenciaram os que cá ficam e pertencem-lhes, ou foram um esbracejar ruidoso e inutil e seguem com o morto para o esquecimento. - O prisioneiro não conseguiu identificar a voz que, no grupo dos que o visitavam, assim falara. No entretanto o padre, levantando os ombros no gesto de quem nada pode e aceita as coisas como são, despediu-se:
- Que Deus o acompanhe - e fez sinal ao carcereiro para que lhe abrisse a cela. Alvarez acompanhou o confessor pelo longo corredor. O rapaz era forte e o carcereiro mais uma vez lamentou-lhe as opções. Daria um bom fascista.
No cubículo o condenado viu-se a sós com Cristo.
- Apoias um bombista?
- Compreendo o desespero. A agressão é sempre uma defesa. O homem não é perfeito. E tu és muito novo.
- Sou maior.
- Não o somos enquanto não vivemos o suficiente. Nunca o serás.
- Tambem morreste cedo...
- Quando não se fere não há lugar para o arrependimento. As asneiras que fizemos quando muito fizemo-las contra nós. Advoguei o Amor.
O prisioneiro calou-se. Não podia amar, não sabia o que isso era. Conhecia o ódio e utilizara-o. Como falar do que não conhecia?
- Porque me visitas? Não comprendo?
- Porque sou um absurdo... e existo.
António olhou em volta. Estava sozinho, o carcereiro e o padre tinham ido embora e a carta para Cacilda repousava na tarimba. Tudo feito. A porta abriu-de para um homem de negro de cabeça envolta num capuz.
- António Montes?
- Sim, sou eu.
- Que fez?
- Matei.
- Quem?
- Inocentes, gente que do mundo nada sabe mas janta vendo as noticias na TV. Gente que grita: "Isto está um horror!" e que retira do nojo pretexto para ser mero espectador. Gente que não participa mas exige férias em Agosto: a massa que engole e mumifica, que luta pelo menor esforço, nisso se esgotando. Inocentes que só querem gozar a vida. Como eu.
- Como você?
- Sim. A diferença está em que o cheiro do puz me impede o orgasmo. As minhas bombas são desinfectante que lanço nas ruas.
- Vingança?
- Justiça!
- Assim a dor não termina nunca. Vamos?
António com um estremeção libertou-se do pesadelo. No Rossio a manhã clareava e junto à estátua outros, metidos também em sacos-cama, dormiam. No sino da igreja, donde outrora saíam os que íam a queimar no fogo da inquisição, bateram as sete horas. António tinha o dia pela frente. Que fazer?
"Que fazer?" era tambem o tema da reunião do Pe. Augusto realizada num bairro elegante da capital e a que acorriam algumas figuras do regime caido em desgraça.
"Que fazer"? era o que grupos de populares se perguntavam no Rossio e também o titulo do livro de Lenine exposto nas bancas dos ardinas, ao lado das revistas porno que a queda da censura libertara. Uma, exibindo na primeira pagina um "fellatio" anunciava: "Como fazer..."
- Devemos sair da Nato. A gente não faz la nada! Temos de seguir uma via diferente.
- O que você quer é o pacto de Varsóvia.
- Devemos ser como a Suíça. Um país neutro.
- O nosso problema é não sermos ricos.
António, estremunhado e mal disposto com o sonho, deu uma volta pelo largo ouvindo uns aqui, outros além, os muitos grupos que já discutiam a respublica. De regresso à zona da estátua um convidou-o:
- Queres? Emborca!
Parecia uma pastilha alucinogénea
- É autentica, meu! Também tomámos. Estamos todos a tripar!
Eram meia duzia de jovens como ele e uma voz lembrou-lhe a desintoxicaçao. Mas ignorou-a e meteu o minúsculo papel na boca.
Cor-de-rosa.
- Nós somos as vítimas desta liberdade que nos deixou sem nada! As nossas bagagens feitas à pressa jazem nos cais e não temos aonde levá-las. Dêem-nos casas, dêem-nos empregos, não nos tratém como lixo que se deita fora! - O líder gritou palavras de ordem e a multidao clamou:
- À morte! À morte!
Eram milhares, rondavam os cinquenta anos e vestiam cores cinzentas. Tinham fugido das colónias e exigiam a cabeça do general que responsabilizavam pela sua perca.
- À morte! À morte!
Horas depois, desembocou, também no Rossio, o conjunto dos que, pelo contrário, exigia o fim imediato do império colonial.
- Nem mais um soldado para a guerra! Nem mais um soldado para a guerra!
Tambem foram embora.
Uma mulher nua.
Nem alta nem baixa, nem magra nem gorda: normal. Os que na praça discutiam interromperam a fala para vê-la passar. Finalmente um militar, aos gritos de "eu sou do MFA! Eu sou do MFA!" correu atrás dela para cobri-la com o seu casaco. Mas Graziela esquivou-se. Saira de casa determinada a deixar para sempre as modas. Se o paraiso era de novo possível, o regresso ao Eden outra vez realizavel, para quê roupas? Deixando o solicito protector da sua nudez para trás seguiu caminho. No entretanto entre quantos a observavam fizera-se silencio. Que fazer? Deixá-la ir? Prejudicava alguém? O MFA também se imobilizara, já incerto quanto à sua própria atitude. Foi uma outra mulher, camponesa de cabelos brancos e olhar vivido, que pôs fim ao pleito: olhando a multidão dos indecisos entre o agir e o deixar ir, decidiu-os:
- Não vêem que ela quer andar nua?
Graziela, tal qual veio ao mundo, atravessou a praça e desapareceu numa esquina. Ninguem mais a viu. Há quem diga que aparece fugazmente, todas as noites, sempre que alguém a sonha.
Na reunião do Pe. Augusto uma voz avisava:
- Temos de agir! Não nos deixemos ultrapassar pelos acontecimentos! O poder está a cair na rua! O Estado dilui-se!
A assembleia - composta por proprietários cujas terras, casas ou palacetes, parte do tempo vazios graças às ociosas permanencias no Estrangeiro, tinham sido tomados por esfarrapados que penduravam nas varandas e sobre os brazões, a roupa lavada nos jardins emocionou-se:
- Apoiado! Apoiado!
Augusto, discutida a ocupação da sua emissora, lembrou:
- E Fatima? Fátma, meus senhores? As pessoas já não acreditam no divino? Onde os milhares de fiéis que nos anos anteriores encheram o nosso santuário com a sua fe e o seu sangue? Onde? Será que acreditam que um programa eleitoral concede a salvação? Não, meus amigos! Nós só na entrega nos realizamos e ninguém, salvo o Todo Poderoso, no-la merece. Só Ele nada exige em troca!
Os que pensaram nos óbulos que Roma lhes extorquira ao longo do tempo - aos proprios ou aos antepassados - fizeram por não os lembrar e, alias, a ditadura servira-os: urgia repô-la. Fátima tinha de voltar a ser local de sangue.
Outro orador:
- Precisamos de instaurar o estado de sítio e pôr ordem na nossa patria!
A tirada foi aplaudida mas todos a sabiam impraticavel. Pelo menos enquanto a tropa não regressasse aos quarteis e a policia, com medo da população, não se escondesse nos vãos das escadas.
A reunião findou por um Pai-Nosso. Na altura do "assim como nós perdoamos aos nossos inimigos" a uníca voz a ouvir-se no salão foi a do padre Angusto.
- É a pulseira barata! Olha a camisa catita! É o peugo fino!
Um comerciante, de loja instalada na praça do Rossio, olhava incrédulo o pandemónioo de triciclos de carga, alcofas, ceiras e cestos com que os vendedores ambulantes lhe obstruiam o passeio frente ao estabelecimento, de mistura com os gritos e choros dos gaiatos ranhosos que rebocavam.
- Não pode ser! Vêm para aqui de manha à noite e fazem disto um mercado! Nem Istambul! E nós pagamos taxas, licenças e rendas!
Outros à porta dos respectivos estabelecimentos, concordaram:
- Sim, senão...
- Temos que pôr o caso à Junta
- À Junta? Porque não ao MFA, ao Copcon, à 5a. Divisão, à Comissão de moradores, ao... Sabem, por acaso, quem manda no país?
- Hoje - anunciou um dos lojistas - vão tomar a Câmara Municipal! Um grupo de não sei o quê...
- Deixe lá - rematou outro - eles próprios não devem saber quem são!
As aténções desviaram-se para um homem saído de uma carrinha. Escancarara-lhe as portas e gritava:
- É leite para todos! Vem de um supermercado cujo dono fugiu para o Brasil! É leite para todos!
Dezenas de garotos maltrapilhos rodearam a carripana.
Aos oitenta anos Mizé começou a ir para a escada do prédio onde morava em combinação de dormir. Talvez o calor, a preguiça, o cansaço por durante anos e anos haver posto e tirado roupa. Ou outra razão. Mas o resultado era apresentar-se quase nua e os vizinhos não gostavam. Além de se porem mais questões: fecharia ela convenientemente o gaz? Não deixaria uma vez por outra a água aberta? Se o predio explodisse? Se uma inundação o tomasse? Na memória de cada um dos seus habitantes havia um desastre que, sucedido algures, podia repetir-se ali mesmo. A ideia de colocarem Mizé numa casa de repouso ganhou, pois, eco, todos acabando por participar na sua procura: a escolha, em acordo com a magra reforma que a anciã auferia, recaiu na "Mitra", o asilo do estado, la onde não se pagava nada. Em consequência, a casa que durante trinta anos ela tinha habitado, ficou vaga. Isto é: cheia de móveis, bugigangas, coisas doutra época. No entanto, o casaco de caracul, dos tempos em que a locatária fora jovem e frequentara o casino, logo desapareceria. Era este o tema de conversa de duas matronas, uma de cabelo muito ruivo e conhecida pela " Ruiva" e a outra, de uma magreza que lembrava a Olivia da banda desenhada e daí, a "Palito". Ambas se sentavam n "A Camponeza", a leitaria da baixa lisboeta:
- E o Piruças?
- Nunca mais se viu o gato! Se calhar fugiu. Os animais também têm desgostos...
- Agora aquilo está vazio.
- Vazio é uma forma de dizer. Cheio de trastes! Quem terá levado o caracul?
- E a cristaleira também desapareceu...
- Ah sim?
Calaram-se.
Na leitaria entraram três jovens e as duas vizinhas olharam-nos tentando descobrir de que género seriam. Tiradas as respectivas conclusões, as duas mulheres trocaram um olhar cumplice e retomaram a conversa, naturalmente aludindo ao objecto da sua acabada analize:
- Qualquer dia ocupam aquilo....
- Também assim para que serve? A Mafalda não queria lá meter alguém? Sempre pareceu a mais interessada em mandar a velha para o asilo...
- Ela estava insuportavel.
- La isso é verdade. - Uma pausa e remendou: - A gente nunca sabe o que Deus nos reserva...
No silencio temeroso das duas mulheres a voz de Lidia, saída do grupo recem-chegado, foi uma interrupção alegre:
- Desculpem... As senhoras sabem de uma casa vazia? Procuramos uma. - Apresentou-se. Tinha dezassete anos e indicou um dos jovens que a acompanhavam. - O meu irmão César e o outro é um amigo, o António. Estamos ha pouco tempo em Lisboa. Necessitamos de um sítio.
Cada uma das mulheres lembrou o discurso do primeiro ministro na TV, incitando à ocupaçao das casas devolutas. Ou seja: tarde ou cedo a da Mizé teria esse destino. E como a Mafalda andava feita com o senhorio, se calhar nem era má ideia. Os miudos vestiam bizarramente mas, pelo menos, não eram maltrapilhos.
- São retornados?
- Eu e o meu irmão, sim. Devemos estudar aqui. Os nossos pais ainda estão em Angola. Mas o António chegou do exílio. Recusou a guerra colonial. É um herói.
Não convinha dizer que o colega de "trip" regressava duma cura de desintoxicação...
- A gente não tem a chave - disse a mulher do cabelo ruivo.
- A porta esta fechada - acrescentou a "Palito".
- Onde é? — Perguntou César que no entretanto se aproximara da mesa. A Ruiva olhou a companheira e sentiu-lhe o acordo.
- Damo-vos a direcção mas não temos nada a ver com isso. - Disse - Depois passam pela comissão dos moradores. Se eles vos aceitarem...
Lídia anotou a morada. As matronas, de ar comprometido, pagaram a despesa e saíram.
Nessa noite, António e os dois companheiros que restavam do grupo do Rossio, forçaram a porta da casa.
Na escada ninguèm surgiu a ver o que acontecia.
Era uma mansarda.
Piruças.
Ganhara o nome de uma série televisiva muito popular quando nascera. A partir daí passara a acorrer sempre que Mizé, no varandim, o chamava:
- Piruças! Ó Piruças!
- Atribuia isso à involuntaria associação daquele nome com comida. Ou seja: o processo que ela usara para o adoptar condicionara-o. Maldita escravatura! No entanto, há alguns dias que não a ouvia! Que acontecera? Onde estava? Porque ficara a casa vazia? Quem levara a cristaleira, a das pernas doces? E o caracul, onde sabia tão bem enfronhar-se?
A vida de Piruças, desde que a mudança se dera, era uma roda-viva: reuniões, manifes, colagem de cartazes, redacçao de manifestos e o mais que surgia ao sabor das necessidades. No ultimo comício fizera um brilharete com a palavra d'ordem: "A eternidade, já!". Ou a sua especie não era digna de alem-tumulo? Infelizmente, alguns mais colonizados haviam contraposto que não era prudente exigir tudo de imediato, que seria irrealista. Os moderados! Como se não corressem o perigo do inimigo se recompôr, tornando à mó de cima! Como se não fora o sonho o fundo das coisas! Ou não era visível que o mundo gato retomava uma nova energia? Porque não irem mais longe? Só as maquinas não se excedem! Só os robots não surpreendem!
- A eternidade, ja! A eternidade, ja! - Gritara Piruças levando consigo parte da assembleia. Mas, nos votos fora derrotado e ganhara a luta pelo direito à abertura de conta bancária!
Que miséria!
Lembrou de novo Mizé. Ao fim e ao cabo tinham vivido juntos sete anos: uma vida. No seu caso a primeira.
- Piruças! Ó Piruças!
Ultimamente, mais descondicionado, não salivava quando ouvia o nome e ela repetia:
- Piruças! Ó Piruças!
Tinha uma bela voz e ficava-se a ouvi-la, lá longe:
- Piruças! O Piruças!
A segunda vida seria diferente.
A mansarda era na Rua da Madalena
Isto está muito sujo!
Estava.
Mizé, vivendo da magra reforma, deixara ha muito de pagar a uma mulher a dias e ela própria já não limpava: o pó acumulara-se.
Antonio, Cesar e Lídia instalaram-se.
Atá ali os dois irmãos, aproveitando do bom tempo lisboeta, haviam vivido no Rossio, dormindo em sacos-camas. Regressados de Angola com um tio, alojados numa pensao a expensas do estado, o parente ganhara confiança nos sobrinhos para deixá-los à vontade, até porque, havendo sempre um comicio ou manif onde urgia defender o direito dos retornados, restava-lhe pouco tempo para a família. César e Lidia visitavam-no de vez em quando, sabiam novas dos pais e regressavam à praça. Pelo caminho pediam dinheiro aos transeuntes, ninguém, na circunstância, ousava recusá-lo e a vida corria fácil. Um pequeno-almoço custava dez burgueses, o almoço o triplo e um lanche a metade. Não raro, todavia, os pedintes escandalizavam os seus benfeitores, habituados, no fascismo a pedintes de pé descalço e reconhecendo a sua classe nos novos.
- Ao que chegámos! Vocês já pedem?
No entretanto o grupo do padre Augusto clamava nos sucessivos encontros:
- A economia arruina-se! Os comunistas e a extrema-esquerda dominam tudo! O Norte que ainda lhes escapa está contra o Sul! Bombas rebentam! Não podemos continuar indecisos por toda a vida! Estamos à beira da guerra civil!
Uma mulher confessava numa entrevista:
- O quê? Como vivemos lá em casa? Sei lá! Andamos tão excitados que nem sabemos se havemos de ver TV ou ouvir a radio e, por fim, fazemos tudo ao mesmo tempo! Parece um lar de doidos! E quando hã uma manif saímos! Olhe, quase não nos vemos mas não andamos chatéados! Mas diga-me: quando é que isto pára?
Um anúncio no Diário Popular, apregoava:
SILVA, QUEREMOS-TE DE NOVO NA EMPRESA.
FOI O FASCISMO QUEM TE DESPEDIU.
NÓS TOMÁMOS CONTA DELA.
ass. OS COLEGAS EM AUTO-GESTAO
as últimas notícias eram...
APOLO E SOYUZ ACOPULARAM NA ESTRATOSFERA
CONTINUAÇÃO DE TEMPO QUENTE
e, em todos os jornais, o destaque dizia:
A ESQUADRA DA NATO ANCOROU FRENTE A LISBOA.
Sentavam-se na sala de estar, a mesa, várias cadeiras e dois aparadores, quando ele entrou.
- Escondeu-se debaixo da mesa!
Perante a realidade do apartamento tomado por estranhos Piruças intuíu a verdade: Mizé fora despejada. Porquê? Porque era velha! O seu sentimento de justiça incendiou-se e a cauda electrificou-se-lhe. Uma mão surgiu a chamá-lo sob a toalha da mesa e foi certeiro:
- Ai! Arranhou-me!
César retirou-se ferido.
O significado dos acontecimentos que Portugal vivia surgiu aos olhos do gato como até ai ainda não acontecera. Apesar de condicionado por Mizé nunca pensara expulsá-la da sua casa. Como fora possível? Ao fim e ao cabo nascera na mansarda e o olfacto dizia-lhe que outros seus iguais ali tinham vivido. E aqueles quem eram? Gente de gatos, ao menos? Espreitou por debaixo da toalha reconhecendo dois machos e uma fêmea. Ela de joelhos chamava-o:
- Anda ca! Anda ca! - E fazia o "Bechbechbech..."
Mas o quê? Reconheceriam o "habeas corpus"? Que aconteceria se se entregasse? Por precaução trocou a mesa pelo aparador: era mais perto do varandim e neste estaria a salvo.
- Escondeu-se ali!
De "gatas" a espreitá-lo ficavam grotescos.
- Ora, deixá-lo! Assim assustamo-lo!
Voltaram aos assentos.
Deixou o aparador e saltou para o varandim.
- La vai ele! - Comentou a fêmea.
Que mundo cão!
Durante um mês limparam, deitaram fora, remodelaram, decoraram de novo. No país acontecia o mesmo: as ruas mudavam de nome, usavam-se outras cores, os envolvidos activamente no fascismo eram "saneados" - o que significava despedidos - e muitos fugiam para o Estrangeiro. António, que colaborara na limpeza da casa como se ainda abrisse e fechasse covas nos terrenos da clínica, fazia por não encontrar nenhum dos passadores que outrora lhe vendiam a droga. César e Lídia fumavam haxe mas não mostravam interesse por produtos mais fortes.
Na comissão de moradores do bairro os três novos locatários registaram a ocupação, souberam o nome e endereço do senhorio e participaram numa reunião onde encontraram a Ruiva, uma das vizinhas de baixo. A propósito da votação sobre um prédio devoluto que abarracados queriam ocupar, ela acusara a inquilina do quarto andar, também presente:
- A Dona Mafalda aqui não manda nada! A senhora e o seu marido estiveram todo o tempo feitos com o fascismo! Falta saber se são da Pide!
A mulher ouviu e não se surpreendeu. Apertou a mão do marido e fez sinal para abandonarem a assembleia. Saíram por entre apupos e o soldado do MFA, que participava na reunião como moderador, tomou a palavra:
- O encontro continua. Isto é um orgão do poder de base e respeitamos-lhe as decisões.
A calma restabeleceu-se com alívio do militar: não se repetira o acontecido com um indivíduo que, assistindo nessa tarde à passagem de uma manif, fora associado a um homicida e, em poucos minutos, linchado.
Em casa, por enquanto a salvo, Mafalda e o marido fecharam-se por dentro.
- Acho melhor ir termos com o nosso filho - sugeriu a mulher.
- O quê? Ir para tão longe?
- Há muita gente a ir para o Brasil.
- Não somos milionários nem pertencemos à Pide! Tinhamos amigos lá, é tudo!
- Isto está a pôr-se mau. Sinto-me insegura. Ocuparam o ultimo andar, a casa da velha
- É o que acontece à nossa se a deixarmos.
- Fazemos vir a nossa sobrinha, a Odete. Ela guarda-la-à e como é nova aqui, ninguém a liga a coisa alguma. Esta ansiosa por viver em Lisboa!
Saíam para pedir dinheiro, deambulavam, compravam coisas e voltavam a casa. Não pagavam renda porque o proprietário, informado pela inquilina Mafalda da ocupação, recusava fazer o contrato.
- Quem são?
- Uns valdevinas! Se os visse! Vestem às três pancadas! Não se percebe se são eles ou elas e pedem dinheiro na rua! Aquilo é droga!
O senhorio lembrou que as coisas estavam uma miséria, citou o primeiro-ministro que nessa manha afirmara "Revolução não é desordem nem indisciplina" e omitiu o que ele tambem dissera: "quem não seguir a lei será educado em campos de trabalho!"
Mafalda, que telefonara para o dono do prédio para lhe contar da intenção de se ausentar em casa do filho, no Brasil, deixando na sua a sobrinha, sentiu no senhorio um aliado, falou no possível interesse da parenta na mansarda da Mizé, e desligou.
Os ocupantes descobriram na casa retratos da mulher que a habitara. Num pousava ela envolta numa estola de peles e acharam-na bela. Perguntaram à "Palito" para onde a tinham levado, ouviram dizer "Mitra" e a resposta inquietou-os: o asilo dos sem nada não condizia com a fotografada. César sugeriu que fossem buscá-la:
- Nós tratamos dela.
- Não tem memória e esquece tudo! A esta hora já nem se lembra que aqui morou!
A coisa ficou no ar mas a "Palito" informou a "Ruiva" da intenção dos ocupantes:
- Eles querem-na trazer de novo!
- Para quê? Agora já está tudo arrumado!
- Sei lá!
No fundo nem os autores da ideia percebiam porque queriam de volta a antiga locatária. Generosidade? Desejo de alguém mais velho, uma referencia? Procura do passado para o exorcizarem? Ou era ainda a mansarda, o ambiente presente nos móveis, a exigir quem lhes dera a alma? Nenhum dos três se punha questões. Simplesmente, a Mizé devia voltar e tornaram a falar no assunto às vizinhas.
- Vocês comprometem-se a evitar que ela apareça nua na escada?
Anuiram.
A amnsésia de Mizé em vez de mal era um atractivo. Qual dos três tinha passado?
- Olha a Merda! Comprem a Merda! Levem a Merda para casa!
- Descubra a Merda! Veja a Merda! Vai gostar da Merda!
Na rua os ardinas gritavam o nome do folheto anarquista e os burgueses compravam-no, ainda mais incrementando aos pregões:
- Quem quer a Merda! Leia a Merda! Não há nada como a Merda! É só Merda!
Na mansarda, limpo o passado e enquanto Mizé não regressava, recebiam-se os amigos que continuavam a morar no Rossio. Mas o movimento de gente subindo e descendo nas escadas desagradava às vizinhas que, há muito e sem darem por isso, se tinham habituado à lei fascista proibindo ajuntamentos com mais de duas pessoas. O regresso de Mizé pareceu, pois, a forma de repôrem a ordem na mansarda e incentivaram-no também. Odete, a sobrinha quarentona instalada na casa da Mafalda, depois da partida dos tios para o Brasil, embora não conhecesse a antiga inquilina, também a queria de volta...
Alheios e ingénuos, os ocupantes continuavam a viver a sua festa. António, por ser o mais velho, tornou-se no cabecilha involuntário da comunidade da Mizé, onde o numero de habitantes passou a incerto.
Na mansarda a regra dependia da situação.
Uma sala enorme, tipo hangar, repleta de camas, muitas em beliche, a lembrar uma pista de aeroporto mas com tecto, mobilada de leitos. Em cada um a mulher que já fora sedutora e bela, mais do que qualquer outra. Falavam para os lados, para cima, para a direita, para a esquerda - algazarra - enquanto outras permaneciam cabisbaixas, sentadas no bordo da cama, presas daquilo que Mizé não possuia: o passado.
- O quê? Voltar? Para onde? Donde é que vim? Já os conhecia?
A Palito explicou que não, mas que eles a queriam levar.
- Porquê?
Lídia repetiu:
- Venha viver connosco! Nós tratamos de si!
Mizé tinha uns olhos azuis muito brilhantes e a linha do rosto perfeita. Era bela e observou os tres desconhecidos: jovens e naturalmente atraentes. Mas porque a queriam? Ja se habituava ali. Não possuir memória tinha destas coisas: não sentia saudades de nada. Um vazio, sim, mas do passado que desaparecia sempre.
- A senhora está bem? - Perguntou César. Fazia dezoito anos no dia seguinte e olhava Mizé como a avó que recebesse de presente.
Lídia andava pela sala espantada com o ajuntamento de tanta mulher. Os anos que lhe faltavam para atingir a idade delas colocavam-nas fora da sua imaginação. Eram apenas espectáculo.
António, acossado pela carencia, dobrara a quantidade dos suporfferos tornando-se ainda mais distante. Como se não tivesse nada dentro de si ou fosse abstracção pura. O retorno de Mizé era-lhe indiferente e nem sequer queria ficar muito tempo na mansarda. Algo o chamava algures mas também não sabia onde ou o quê.
Lídia regressou da volta pelo hangar e uma enfermeira aproximou-se do grupo. Mizé abanara a cabeça a dizer que sim, que se sentia bem. Mas que interessava? Piruças... Vivera com ele os ultimos anos. E a casa... A casa, é verdade... Regressar? Não valia a pena. Gente não se pode confiar. Mas o gato. O gato seria outra coisa. Esperá-la-ia? Esqueceu que não o citava e perguntou:
- Ele está bem?
- O Piruças? - Deduziu a Palito.
- Então, Dona Mizé, hoje tem visitas? - Interrompeu a enfermeira.
- Vêm-me buscar...
- Ah! Olhe que é raro fazerem isso a alguem de cá. - E para si mesma acrescentou: A não ser o cangalheiro. O cangalheiro vem todos os dias.
Lídia:
- Somos nós, eu, o César, o meu irmão e... - Procurou com o olhar António. Encostara-se a um armário. Era um homem estranho. Mas apesar de falar pouco fazia o que eles faziam. Um deles, sem duvida, e lá estava a mascar mais uma pastilha! A enfermeira seguiu o olhar de Lídia, descobrindo um tipo de vinte e muito poucos anos, alto e esguio. Se pudesse seduzir um assim...
Mizé confessou:
- O meu marido morreu.
Não soube porque o dizia mas não se perguntou. De novo o gato... Mesmo ele, nos últimos tempos... Ela a chamá-lo, a chamá-lo...
- Piruçasl O Píruças!
Voltar àquilo... Para quê?
A Palito interviu:
A Lurdes era para vir mas não pôde. - A entoação dizia: "ela também está dentro do assunto" como se explicasse: "nós precisamos de ti lá para pormos estes na rua..."
Em redor o mulherio falava, fios de conversas escorrendo no gigantesco gineceu, um campo de flores estéreis, murchas. Um desterro de recordaçoes. Mas Mizé esquecera quase tudo. Era feliz.
- Lurdes?
- Sim, a Ruiva, a nossa vizinha. E agora temos outra. A Mafalda e o marido abalaram. Foram para o Brasil. Têm lá o filho... Ficou na casa a sobrinha. Chama-se Odete. De resto esta tudo igual. Sao os escritorios.
Tão longe daquilo. Talvez por isso já nem importasse o vestir-se. Esconder o quê? Mostrar. Mostrar tudo. Tornar-se transparente como efeito dos anos, do cair das máscaras, do cavar das rugas. Até ser visível o monstro que era, que o tempo fabricara ou... sempre fora. Isso o que lhe imputavam: deixara de se cobrir e a verdade via-se. Voltar para quê? Aonde? Ao passado? Mas não o destruíam? Algumas das que lhe eram companheiras falavam de mudanças, coisas que não aconteciam há muito. Ciciavam entre si e calavam-se olhando algo que as absorvia. O passado? Deixá-lo lá estar.
A enfermeira:
- Então, Dona Mizé, sempre regressa?
Não respondeu ou nem ouviu.
António aproximou-se. Estava farto. O hangar era miséría e mijo. Como se metera naquela naquela história? Que tinha a ver com aquilo? De vez em quando sentia muita coisa por decidir, que o tempo urgia. Depois... Talvez fosse das pastilhas. Afinal convalescia. Mas era isso? As centenas de camas alinhadas umas ao lado das outras como esquifes angustiavam-no. Nervosamente trincou mais um suporífero. A enfermeira notou-o e, também, que o grupo não lhe oferecia confiança: queriam de volta a velha para qualquer coisa. Mas não se ralou. Se as levassem a todas...
A Palito ajudou:
- Vai, pois! Agora já tem quem trate dela.
A enfermeira curvou-se e retirou de debaixo da cama a maleta com os pertences da hóspede.
Mizé vestiu o casaco. Os seus gestos tinham elegancia. Ia voltar... Uma lágrima caiu-lhe do canto do olho mas não deu por ela: era o hábito de chorar em certas ocasiões. Lembranca do corpo. A enfermeira entregou à Palito uma caixa de comprimidos:
- São da Dona Mizé. Deve tomá-los todas as noites antes do deitar. Na embalagem diz como.
Afastou-se e o grupo ficou em silencio. Mas o silabar das conversas em redor era frenético e pareceu que ninguém se calava. De qualquer modo, coisas se diziam embora não por eles. César, que procurara a casa de banho para fazer um cigarro de haxe, voltou. Discretamente passou-o a Lídia e ela a António. A enfermeira regressou:
- Aqui está a guia para mostrarem à saida. - Trocou beijos com Mizé e disse-se: - Tem cuidado não te matem...
Na portaria entregaram o papel. O funcionário, idoso como as internas da casa, leu-o e olhou a que saía:
- Sua marota! Escapas-me! Em pequena deves ter sido muito boa!
Mizé olhou-o. Viu-o cinquenta anos mais novo e não gostou.
- Mas não seria para a tua boca!
E riu, mostrando a bela dentadura postiça.
Talvez se lembrasse mais do que fazia crer mas, percebidas as vantagens do esquecimento, ostentara-se definitivamente sem memória. Efeito ou não do fingimento sentiu-se assim mesmo. Mas tomara muita cortisona para os diabetes e podia ser disso.
No táxi para casa Mizé viu uma manifestação de operários a rodearem a assembleia nacinal:
- Parece que há coisa... - O condutor, pouco mais novo que a passageira, identificou a palavra no que significava para a geração crescida sob o fascismo: manifestação proibida, carga da polícia sobre os manifestantes, revolta contra a ditadura.
Dizem que ao fim da tarde vai haver coisa... E os cidadãos passavam a notícia em voz baixa não fosse a pide prendê-los: referir a coisa era fazê-la.
O carro parou dando passagem a um grupo de manifestantes e Mizé, esquecida de que houvera a mudança, ordenou ao condutor:
- Avance! Avance! Vai haver coisa! Não tarda aí a polícia de choque e levamos também! Isto é coisa!
Um miúdo com uma bandeira negra espreitou para dentro do carro e fez uma careta. Mizé mais se alarmou:
- Vamos embora depressa! Não temos nada a ver com isto!
Lidia interviu:
- Acalme-se, Dona Mizé! É uma manifestação! Todos os dias há dezenas!
O motorista explicou :
- São os operários da construção civil. Há dois dias que cercam a assembleia enquanto lá dentro os deputados redigem a constituição. Querem-na a seu modo...
- E o Salazar, o Salazar deixa? - perguntou a experimentada Mizé.
Em casa apresentaram à recem-chegada os hóspedes da altura. Ignorando-os ela foi directa ao varandim:
- Piruças! O Piruças!
O gato não veio.
No cabelo de Mizé foram descobertas alguns parasitas trazidos da "Mitra" e cortaram-lho rente. Ficou a parecer-se com um personagem dos filmes de Fellini. Rodeada de jovens que a ouviam religiosamente Mizé contaria a sua história.
Na primeira noite disse:
- Nasci no Porto no ano de 1900. A minha mãe era uma senhora da melhor sociedade e casou com um homem que tinha um estúdio de fotos. Mas as coisas não corriam bem para o negócio e eles mudaram-se para Lisboa onde nasci. O meu pai abriu nova loja e teve melhor sorte que no Porto, sendo convidado para reportar os acontecimentos mais importantes da cidade. Nos tempos livres da escola comecei a ajudá-lo e aprendi fotografia. Tudo ia bem quando, de repente, ele faleceu e a mãe, que o amava muito, não lhe resistiu, seguindo-o com poucos meses de diferença. Fiquei só, ajudada por um tio, irmão de meu pai, tinha eu, nessa altura, vinte anos. Pela mesma ocasião entrou como ajudante para o estúdio um rapaz chamado Patricio por quem me apaixonei e ficámos a dirigir o negocio. Viviamos felizes até ao dia em que rebentou o escândalo: uma manhã a Pide veio prender o meu marido! - Calou-se como que atordoada pela lembrança. Cesar insistiu:
- Mas porquê, avó?
-Porque, sem eu saber, ele dedicava-se à fotografia de nus e organizava encontros entre os modelos e personalidades da situação. Ou seja, o meu marido tinha uma vida dupla! E como um dos modelos quase matou um ministro acharam que era um atentado e que o meu marido estaria por detrás de tudo! Foi o fim! Prenderam-no e ele sucumbiu num dos interrogatórios. Mal me deixaram ver o corpo! Mas perdoei-lhe. Foi o único homem da minha vida e nunca quis saber de mais nenhum. Passei a loja e investi o dinheiro numa pensão vitalícia - Levantou-se e foi à janela: - Piruças! Ó Piruças!
Na segunda noite Mizé contou outra historia:
- Fui casada com um espanhol que lutou contra Franco. Mas ele foi preso e na tortura denunciou os camaradas. Estes não lhe perdoaram e, depois de liberto, teve que andar escondido senão matavam-no! Acompanhei-o como me competia: era o meu homem e nunca conhecera outro. Mas o desprezo dos colegas, a vida difícil que levavamos - onde aranjasse emprego logo o despediam ao saberem da prisão - levou-nos de degrau em degrau a uma miséria cada vez maior. Ele começou a beber e, por fim, não fazia outra coisa senão satisfazer o vício. Acompanhei-o e decaímos até onde não era mais possível. Mas não tinhamos dinheiro e, com a falta de alcóol, ele ganhou o habito de me espancar. Eu, às suas escondidas, entrei na prostituição e chegava a casa sempre com garrafas. Só que, um dia, ele descobriu tudo e, a partir daí ganhou-me ódio. Por um lado aceitava o vinho que lhe trazia e por outro insultava-me: "És una puta! És una puta!" Ele morreu e refiz a minha vida. Os meus lapsos de memória vêm daí, do alcóol que bebi. O passado não perdoa. - Calou-se e, no varandim, chamou de novo: - Piruças! Ó Piruças!
O gato nunca respondeu.
António passou pelo ministério do exército para saber a sua situação militar. Antes de abalar para a clínica submetera-se à inspecção, tinham-no avaliado com a mesma fatalidade com que se olha um peão de xadrez destinado a ser comido, e fora dado como bom para a guerra. Mas a desintoxicaçao levara-o à Holanda e faltara à chamada. Na secretaria aténdeu-o um militar pouco mais velho que ele.
- Sou o capitão Mendes. Vens para a tropa?
- Não sei. Isto é, gostaria de saber se já fui chamado.
O outro pediu-lhe o nome e afastou-se. Na pequena sala o movimento era intenso. Um soldado empoleirado numa cadeira afixava um cartaz com a palavra d'ordem: "Nem mais um soldado para as colónias!".
O cpitão regressou:
- Ainda não. Mas neste momento prepararamos uma campanha de alfabetização para os camponezes. O serviço militar agora tem outra função, está ao lado do povo e não a combatê-lo. Aceitamos voluntarios. Queres vir?
- Devo decidir agora?
- O próximo batalhão ainda não está pronto e desconhecemos quando partirá. Como vês... - Olhou em volta. — Está tudo em mudança e ela depende de nós. António lembrou as parangonas dos jornais naquela manhã:
OTELO PROPÕE A SUBSTITIJIÇAO DO GOVERNO POR UM CONSELHO REVOLUCIONÁRIO
PRIMEIRO-MINISTRO DA JANELA DO SEU PALÁCIO MANDA À MERDA UMA CONCENTRAÇAO DE TRABALHADORES
Um miúdo cor de azeviche, metido numa farda que lhe sobrava, como um soldado em miniatura mas sem uniforme a condizer, chegou-se ao militar:
- Meu capitao, a reunião já começou.
O homem pôs o garoto às cavalitas e perguntou a António:
- Tens algum coisa a fazer?
- Não.
- Então vem dai!
Pensou no que naquela manhã acontecera no prédio: Mizé, que passados os primeiros dias de boa disposiçao e galhofa, se tornara rabugenta e irritada, clamara na escada:
- A casa é minha! A casa pertence-me! Rua! Quero todos daqui para fora!
Quem a levara àquilo? Fora da sua iniciativa ou houvera alguém por detrás? A sobrinha da inquilina ausente? Uma das outras? Qualquer delas deixara há muito de dar os bons-dias aos inquilinos da mansarda. Preparavam-se para despejá-los do prédio?
Sem esperar pela resposta de António o capitão fê-lo entrar na secretaria. Desta saíram para um pátio corrido pelo Sol onde, encostados aos muros que o ladeavam, magalas descansavam. Numa das parede havia um gigantesco "graffiti":
SOLDADOS UNIDOS VENCERÃO. UNE-TE AOS SUV!
Ao lado, um tímido cartaz lembrava o dever dos militares de se manterem à margem das lutas políticas...
A reunião era num pavilhão pré-fabricado postado no centro do pátio e o orador da altura apelava à disciplina. Seguiu-se outro discordando do anterior e um terceiro que aceitava o ponto de vista do primeiro mas exigia formação política na recruta. Terminada a reunião Mendes veio buscá-lo.
- Entao, sempre queres vir para cá? Precisamos de gente.
Respondeu que ia reflectir. O graduado retorquiu:
- A chamada nâo é para já. Ainda nos estamos a organizar. Há alguns problemas. Não é de repente que se passa da guerra à paz.
Ouviu-se burburinho e no pátio surgiu um soldado aos gritos:
- Mataram o sargento! Mataram o sargento!
Um grupo segurava um homem. Este gritava:
- Ele insultou-me! Ele insultou-me!
António deixou o capitão a braços com o problema.
À porta do quartel, um grupo de soldados distribuia panfletos. Aceitou um e leu-lhe o título:
AS FORÇAS ARMADAS ATRAVESSAM UM PERIODO DE DESAGREGAÇAO DO QUAL GRUPUSCULOS ANARQUIZANTES SE APROVEITAM!
Deitou-o no lixo.
Nova pastilha. Em breve acabariam as que trouxera da clinica. "Depois não deve tomar mais. Tem de aguentar-se sem nada."
Sem nada...
Mizé, em pijama, desceu do seu quinto andar para o terceiro, o da Ruiva. Não a encontrou mas no regresso Odete, no quarto, saiu-lhe ao caminho.
- A senhora ainda hoje não se vestiu! Eles lá na sua casa não tratam de si?
Cesar e Lídia tinham proposto a Mizé que andasse como quizesse, desde que não saísse de casa. Mas ela passava o tempo na das vizinhas. Na sua, os ocupantes desfaziam-se da mobilia. Isto já não se usa. Isto pode-se deitar fora. E lá lhe destruíam o seu tempo. Porque fora outro que sobreviera só que ela ainda estava viva. A morte desprezava-a? E o Piruças! Que lhe acontecera? E porque ia agora para cima? Ah, dirigia-se a casa. A sua. Sua...? E os outros? Porque lá estavam? Donde tinham aparecido? Quase a chegar ao seu piso viu um trapo negro a lembrar-lhe um certo casaco. De vestido comprido e abafo de caracul entrou no carro que a esperava à porta. Naquela noite saía para jogar no casino. Sim, um casaco, negro como aquele bocado de trapo. Em baixo, Odete, pusera-se a varrer os degraus e Mizé, de trapo na mão, falou-lhe pelo vão da escada:
- O meu caracul? Onde está o meu casaco de caracul?
- O caracul? - perguntou a outra de cabeça virada para cima.
- Sim, o do casino!
Ouvindo- a da sua casa, no segundo, a Palito apareceu:
- O que se passa?
- A Dona Mizé diz que lhe desapareceu um casaco de caracul. - Informou a sobrinha da Mafalda.
- Devem ter sido "eles"! — Acusou a Palito que não perdia já a minima oportunidade de maldizer os ocupantes - um primo interessara-se pela mansarda e recompensa-la-ia se a conseguisse. Mizé, apoiada pelo coro, gritou:
- Quero o meu casaco! Vou ao casino!
Odete, ainda não habituada aos desvarios da idosa, associou a exigencia a excesso de barbitúricos e clamou:
- Eles são uns "drógados" e dão cabo da velha!
A "Ruiva" chegava da rua. O ódio que votava a Mafalda dirigira-o para Odete e, apesar de também não lhe agradarem os de cima, atacou a sobrinha da fascista:
- Pois, eles são "drógados" e você é a bufa!
- Bufa, eu? - Retrucou a acusada que, nessa mesma manhã telefonara para o senhorio a dar conta de como íam as coisas no prédio. Mas refez-se e, utilizando informações que a tia lhe dera, contra-atacou:
- E você? Sua "vermelha! - Fez uma pausa, olhou do alto do seu andar a "Ruiva" que dalguns anos para cá engordara desmesuradamente e acrescentou: - Sua vaca vermelha! - e fechou-se na sua casa com estrondo. A Palito tambem recolheu e Mizé, esquecida a reclamação, penetrou na mansarda. No entretanto a "Ruiva", repetindo sempre "sua bufa!" continuou a subida. Morava no terceiro andar mas, desde que alargara, tinha a impressão que a escada crescera. No prédio entrou um grupo a vozear e parou para espreitar. Palito ainda algum tempo atrás da porta da sua casa, na esperança de ouvir mais das vizinhas, deu tambem pelo alarido e saiu de novo à escada. Foi a primeira a atacar:
- Isto lá em cima é a feira! Não páram! É um carrocel todo o santo dia!
A Ruiva que, finalmente, alcançava o seu terceiro piso, apoiou:
- Não há mesmo paz na escada! O que falta são campos de trabalho! Acabam-se logo as folias! - E mais alto, para que Odete, em cima, a ouvisse, concluíu: - Onde caibam todos! Escusam de ir para o Brasil!
- Isto é droga! — Reforçou a Palito já com o grupo, de facto para o ultimo andar, a passar-lhe à porta. Odete reabriu também a sua porta e, ignorando o ataque da "Ruiva, tornou à luta, agora contra o inimigo comum:
- É o que eu digo! Ainda matam a velha! - E, a exemplo dalguns jornais que lançavam uma campanha associando juventude e droga, acrescentou: - São "tochicómanos!" Mas na reunião do padre Augusto também alguém lembrara:
- Não é só Portugal a passar mal! São sobretudo os nossos jovens! A droga fá-los esquecer a autoridade familiar e sem ela o Estado não se mantém. Temos que reinstaurar o poder parental, a autoridade e o Estado!
Apelo identico levara nesse dia o primeiro-ministro a decretar greve no próprio governo:
- Fazemo-la até que o estado tenha meios para exercer o seu poder.
A polícia naquela tarde visitou pela primeira vez a mansarda:
- Os vizinhos queixam-se da musica alta.
- Dona Mizé, sente-se bem?
- Dona Mizé já tomou os comprimidos da noite?
- Dona Mizé precisa de alguma coisa?
A propósito de tudo e de nada as vizinhas visitavam a mansarda e a boa disposiçao da anciã, em relação àqueles com quem morava, dependia desses contactos. Se mais assediada, dizia que a casa lhe pertencia, se só com os ocupantes adaptava-se-lhes. Um casal amigo de César e Lídia passou o fim-de semana na mansarda e, quando a Palito bateu à porta "é para saber se a Dona Mizé tomou os comprimidos!" a idosa foi peremptória:
- Estiveram cá uns "sexuais! - E mostrou dois dedos unidos.
- "Sexuais"?
- Sim, "sexuais"!
A "Palito" suspeitou apenas o que seria mas, em todo o caso, sobre sexo não fazia perguntas e, de qualquer modo, o que ouvira, mais o gesto dos dois dedos colados, bastara-lhe: fremiu as narinas e foi direita à cozinha. A festa tinha sido grande e César e Lídia lavavam uma pilha de loiça.
- Vocês metem cá "sexuais"? Não têm respeito nenhum pela Dona Mizé! Assim não pode ser!
Odete bateu à porta.
- Então Dona Mizé como tem passado? Está na hora dos comprimidos. Já lhos deram?
- Eles este fim de semana meteram cá "sexuais"! - Vociferou a Palito mal viu a outra.
- "Sexuais"? Ah!
Não ousou esclarecer ao certo do que se tratava - queria lá saber dessas "coisas" - mas, certa que se tratava de sexo, admoestou Mizé:
- E a senhora não os pôs fora? Porque não nos chamou?
- Chamar? Porquê? - indagou a anciã esquecida já do motivo daquilo tudo.
- Os "sexuais"... - Lembrou a Palito a ver aquela boa causa diluir-se na má memória da testemunha.
- Sexuais?
- A senhora é que disse! - Socorreu Odete.
- Eu? Olhe, não sei de nada!
A sobrinha da Mafalda achou que Mizé, devido à presença dos ocupantes, piorava da cabeça mas tinha de ir às compras e saiu. A Palito, de novo só com a locatária, achou melhor instruí-la, tanto mais que percebia o interesse da recém-saída na casa:
- A senhora precisa é de gente a sério que traté de si. Assim não está bem! Olhe, desconfie da Odete, ela quer vir para cá! - E concluíu: - Sexuais! Veja-se bem!
Batéram ainda à porta
A "Ruiva" percebera que Odete abandonara a mansarda e oferecia também os seus préstimos.
- Então, Dona Mizé já tomou os comprimidos da noite?
A Palito nem deu tempo para qualquer resposta:
- Veja lá que este fim de semana estiveram cá "sexuais"!
- "Sexuais"?
- Sim, senhora, aí todo o tempo. - Uniu os dedos indicadores como Mizé fizera, tudo acompanhado pela devida expressão de nojo e a Ruiva, sem pensar em mais nada, tambem não hesitou:
- Campos de trabalho! Campos de trabalho com eles! - E tornou a levantar a voz, na esperança de que a sobrinha da Mafalda, no andar de baixo, a ouvisse: - Campos de trabalho e é uma limpeza!
Na TV aberta o locutor noticiou a lei que punha fim à ocupação das casas. As duas visitas olharam-se: a mansarda valorizava-se. Despediram-se de Mizé e voltaram a lembrar os comprimidos.
Reapareceram ainda, assim como Odete e, coincidência ou não, na manha seguinte Mizé teve muita dificuldade em acordar. Quando isso aconteceu já a tarde ia alta, estava mais confusa do que habitualmente e foi para o varandim delirar:
- Piruças! Meu amor! Tu não apareces, tu és mau mas eu também sou má, deixa lá todos o somos e não ha lei que nos melhore e mesmo que a inventemos só muito poucos quererão segui-la! A regra, Piruças, é a do menor esforço por isso nunca atingiremos o ideal e assim ele não há, ele é uma mentira, nós não estamos à sua altura, talvez tantos o atinjam, mas com que direito nos obrigam eles ao seu modelo? Ah, Piruças, a saudade do Paraíso nunca nos larga mas olha, do velho nasce o novo, que por sua vez cairá também e no mundo só a mudança permanece! Piruças não sigas o meu exemplo, não te ponhas nu porque no teu caso ainda te roubam o pêlo! E morde! Morde até que te respeitem e não queiras a Lei da Selva pois é a do Leão!
A seguir, exausta, voltou para a cama e dormiu o resto do dia e mais o outro.
Na noite anterior, ao deitar, tomara de certeza comprimidos a mais.
António recebeu uma convocatória para se apresentar na instituiçao militar e a notícia agradou-lhe: no prédio o ambiente degradara-se.
Na secretaria do quartel perguntou pelo militar que da vez anterior o atendera.
- O capitão Mendes? Está preso e a unidade dele foi extinta.
- Venho para participar na campanha de alfabetização.
- Está pronto para partir?
Respondeu que sim. Mesmo que o enviassem para a guerra não importava. Talvez quizesse dar cabo de si sem ter de fazê-lo pelas próprias maos. Decidir nunca fora o seu forte e a maioria das vezes quando isso acontecia era ja levado pelos acontecimentos. Ou, pelo contrário, tão depressa passava à acção que se diria temerário. Não sabia usar a razao. Em si comandava o corpo todo.
Para onde vou?
- Para a Beira. Mas aguarde que o chamemos. Estamos a reunir um batalhão. Lutamos por uma sociedade mais justa, sem exploração duns pelos outros e onde saiba bem viver.
O homem falava apressadamente, num ritmo convulso, aos sacões, como se receasse não ter tempo para se expressar. Mas a consciencia de que o tempo comandava era comum às forças em luta e, na reunião do padre Augusto, um dos oradores avisara:
- Ganham os que tiverem a iniciativa política!
Quem naquela noite dera os comprimidos a Mizé ouvira-o? Ou fora distracção dos que a tratavam?
Impressionado com o que achou ter sido uma tentativa de assassínio da Mizé, António pegou na muxila com o saco-cama e instalou-se de novo junto à estátua de Pedro IV, no Rossio. Ai conheceu Kuine e Lucia, ambos de partida para uma aldeia em Trás-os-Montes. Convidaram-no.
- Isto aqui acabou! Lá ainda é possível. Repara que as bancas dos jornais já não expôem pornografia. Saíu uma lei. Agora só nas "sex-shopes". É outra vez a especialização. Não tarda que a política seja feita pelos profissionais e os outros votarão de tantos em tantos anos. Mas no norte ainda não. Lá há aldeias desabitadas. Vem connosco. Construiremos a nossa sociedade e deixaremos isto apodrecer. Daremos o exemplo da alternativa!
De novo sem alojamento, mas sobretudo porque continuava sem projecto próprio, aceitou o convite. Com Kuine e Lucia foi para uma das saídas de Lisboa pedir boleia.
O primeiro carro a parar foi uma velha "chevrolet" e nele seguiam dois homens. O condutor avisou:
- Roubámos a carripana a um capitalista. Foi bem feito, não foi?
O companheiro elucidou:
- O pior é que encontrámo-la na sucata e não anda a mais de oitenta! Subam!
Na rádio transmitiam notícias: a emissora ocupada pelos trabalhadores fora dinamitada pelo governo e impedida de transmitir.
- Já chatéia tanta política! Temos aí cassettes!
O colega meteu o "Oh Lord want you by me a mercedez-benz?" pela J. J. e virou-se para trás:
- O que fazem?
Houve um pequeno silencio e nele Lucia respondeu:
- Nada.
Então trabalhamos no mesmo. Mas há por ai umas campanhas esquisitas. Ontem a polícia entrou no bar onde estavamos e revistou tudo. Fecharam-no. Naquela rua é o terceiro a ir à vida numa semana. Dizem que procuram droga mas na verdade fecham tudo onde a malta mais nova se reuna.
O do volante interviu:
- O mal é a gente ser pobre. A festa não pode durar muito mais. Temos que voltar ao trabalho. Vamos parar.
A tasca à beira da estrada estava repleta de idosos que viam a televisão. Comentavam a desordem, o mau caminho que as coisas tomavam, o como elas haviam sido antigamente. "Pelo menos com Salazar tinhamos paz!" Olharam os forasteiros por algum tempo e voltaram à conversa.
António, enquanto tomava o café, decidiu que não seguiria viagem. Ao fim e ao cabo, se não encontrava razao alguma para ficar também não a tinha para se pôr a caminho. Quem assegurava que no tal sítio fosse melhor? Comunicou a Lucio e a Kuin a resolução. Este tentou demovê-lo:
- Lá vai ser bom. Podemos mudar as coisas.
- Talvez não queira mudar coisa alguma - retrucou António.
Lucia e Kuine partiram. Um ancião interrogou António:
- Não foi com os seus amigos?
- Vou noutro sentido.
Que dizer?
- Pois é! - Desabafou o outro - Isto esta torto! É só confusão! E África? Vamos entregá-la? Morreu-me lá um filho! Calou-se, a voz embargada. - O Salazar condecorou-o no dia da raça! Quer ver? Trago sempre a medalha comigo! - Meteu a mao nos bolsos e procurou. Não encontrava. Não iria encontrar nunca. Outro camponez apontou a TV:
- Estão sempre a interromper por causa das notícias! Não se vê um programa a sério! São só manifestações... E o trabalho? Sem ele para onde vai a gente? - Mostrou as mãos - Eu cá nunca conheci outra coisa! Trabalhei sessenta e dois anos! Desde os dez!
Tomou a camioneta para Lisboa. Chegou pelo anoitecer. Havia pouca gente nas ruas e resolveu visitar a mansarda. À entrada do prédio encontrou Odete.
- Lá em cima não há ninguém. A policia pôs tudo na rua.
Quis saber de Mizé.
- Está no hospital. Sentiu-se mal e levaram-na. Depois torna à "mitra". Se escapar...
Viu na outra um sorriso mau. Mas não tinha nada a fazer ali e despediu-se. Odete ainda acrescentou, a saborear a vitória:
- Nem vale a pena subir. Fecharam a porta com uma tranca! - E acrescentou: - Lá é que era, ãh?
Não a ouviu. Afastou-se. O clima permitia dormir ao relento. Depois, se veria. Depois... Meteu a mão no bolso e não encontrou pastilhas. Encaminhou-se para o Rossio, para junto da estátua e encostou-se-lhe. Fora ali que tomara a "trip" e sentia-se numa ressaca. A praça estava deserta de peões e um ou outro cruzava-a apressado. Dezenas de carrinhas de polícia estacionavam no largo. A imagem do Rossio repleto de gente, discutindo o futuro do país, surgiu-lhe com alucinação.
Uma mulher jovem aproximou-se.
- Não podes estar aí! Foi decretado o estado de sítio. Vai para casa senão prendem-te!
- Para onde?
Percebeu que ele não a tinha.
- Vem comigo, se queres. Chamo-me Ema.
- Ema?
- Sim. Porquê? - Fez um trejeito de menina contrariada
- Não é isso. É...
Não sabia o que era. A droga mudara-o. Havia que recuperar, reaprender tudo. Talvez em tempos conhecesse alguém com aquele nome, quando tinha sido outro... Ema... A atenção foi-lhe desviada para um dos carros da polícia: um rapaz era identificado e, acto contínuo, agredido.
- Ele não fez nada! - revoltou-se a rapariga.
António não respondeu e ela viu-o dirigir-se na direcção dos agressores. A maneira que tinha de andar lembrou-lhe alguém. Mas conhecera tantos homens. Sobretudo desde que fazia o cais. Se o amor daquele lhe mudasse a vida, se fosse ele o seu príncipe...
O rapaz agredido foi metido na carrinha e, trocadas breves palavras com os guardas, António foi também convidado a entrar. A viatura tomou andamento. Ema presenciava a cena como se ela se passasse demasiado depressa para reagir. Mas o carro cruzou junto de si e, ao ver António na janela, gritou-lhe:
- Aqui! Encontramo-nos aqui.
Por detrás dos vidros ele concordou:
- Sim. Aqui! No centro!
Pela primeira vez desde há muito comprometia-se e um guarda puxou-o violentamente:
- Cale-se!
A carrinha travou bruscamente por causa do gato que atravessava em correria a praça e António sentiu que o socavam. Sem se dar conta desobedecera ao guarda e continuara voltado para trás a gritar:
- Sim! Aqui! No centro! Encontramo-nos aqui!
Não sabia porquê mas a esperança, inelutável como as regras que naquele dia lhe tinham aparecido, renascia. Um polícia fez sinal de que fosse embora "há estado de sítio" - lembrou - e, como as mulheres que saem dos templos curvadas ao sagrado, e ainda a rezar, Ema ao mesmo tempo que se afastava, dizia:
- Sim... Aqui... Aqui.... Encontramo-nos aqui...
fim
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