sexta-feira, 27 de junho de 2014

MANUEL NETO DOS SANTOS

Do Tacto


Um livro sem dedadas não é livro;
É praia ainda virgem
Esperando o primeiro passo da Viagem.
Indigito a epiderme; enrugada pela brisa…
Para que se imprima o primo verso, em mim.
Actua, imagem!
Desenha a língua os lábios
(Pela ponta),
Desenham cílios o berço da orbital.
Despes-me pelo olhar;
Desnudo-me num suspiro.
Deitado me assinalas o obelisco da promessa;
Por sinal.
Deslizo sob os teus dedos…
Como gotícula ao longo da vidraça;
Arrepios de calor, engelhado de ardor.
Esse teu gesto, em brasa,
Marcando, a ferro, passa.
Turba-se a mão
Num adeus de vai vem.
O calor que me ergue a saudade
Sendo meu, é teu também.
Indica dor o fundo
Quente e estreito…
Estocada impetuosa
No chiar de um leito.
Na penugem do musgo
Dos sovacos,
A mão é outra concha de uma ostra;
A pérola? O teu sorriso
Que “entusiasmo” mostra.
Pianíssimo,
Pressionas a tecla da surpresa.
Coceguento…Vibro, vibrátil e encontro a vibrante
Entoação de um timbre
E de um registo
Que registo… à mão.
O amor impossível
Pelo rapaz que não quero;
É isso mesmo: perfeito,
Desenhado na intenção
Do naufrágio dos dedos…
Pela cordilheira da carne.
Na palma que se espalma e abana,
A mão, o efebo, o esmero.
Quente.
Mais quente.
Ainda mais quente.
Tacteio- te com o olhar
Se te encontro frente a frente.
Escaldo-me, queimo-me,
Com um galo na cabeça…
Em baixo…
Eis um tolontro.
No gesto que se rasga
E beija o espaço,
O drama é formigueiro
Pelo sangue urgente.
Tenho frieiras na alma,
Ponho a marca dos dedos
Nisto que faço, nisto,
Gesto de humildade e de embaraço,
Que de iletrado o faço…
A almofada e a tinta é, pois, por onde existo.
Ficaste impresso em mim; à flor dos dedos.
Lavo a memória, desbotado ficas.
Das mãos, limpa-se o fogo,
Se a pele esticas.
E a alma…
Sem unguento
Para os segredos.
Esfregam-se as falangetas;
Sensuais;
O toque é de veludo, ou tafetá.
Eis os cinco promontórios
Tão iguais
À rigidez de não te ter por cá.
Rapaz, empurra a porta do abandono.
Dá-me os mamilos rijos de azeitona.
Do mar da noite, não me chega o sono…
E a vaga da luxúria vem à tona.
Andando sobre as brasas de um sorriso;
O teu que hoje me deste
- De passagem-
No tumulto da cama é que preciso
Tornar-me cinza
Pelo teu beijo,
A aragem.
E foste, pelo meu corpo,
Deslizando;
Modelei-te com as mãos gulosas, ternas.
Escaldaram-se, em surpresa, entrepernas.
Calor da tua pele; sedoso e brando.

Sei de ti, ainda, os contornos de David…
Podia desenhar-te no ar, no barro ou espaço.
Revejo-te disforme no que faço;
Perfeito se a memória é a minha lide.
Roubo-me na ânsia de me dar a ti.
Vês? Nas conchas das mãos
O segredo que me acariciaste
E que nem eu mesmo vi.
Arrepias-me no acto de partir.
Aceno-te um adeus, nisso percorro
O facto e o tacto pois
Morrendo
Morro.
Viras-te, e a tua pele
A rir,
A rir,
A rir… por nós dois.

DO OLFACTO
Inspiro-te pelas narinas;
Vens e agitas folículos e emoções, memórias e aromas.
Antes de entrares em mim já tu me tomas;
Do saco da raiz ao pêlo;
Oloroso de desvelo.
Desces por mim;
Influxo morno e transparente.
Arredonda-se o peito, a sua arcada,
E o tórax, celebrado,
É esbelta cumeada
Do ar que tu me doas…
Perfumado, tão diferente.

Sei-te de cor.
Exala a mornura do teu corpo nu,
Perfume adocicado, tão único, por seres tu.
Sabor de sal e seiva;
O teu suor.

Descrevo o odor da chuva por Outubro:
Primeiríssimas gotas de Pandora,
A caixa que liberta o pasto
E agora
Descrever-te, pelo olfacto…
Não descubro.

Cavalgo-te
De almíscar.
Como a vaga que se quebra
E morre em albi-espuma
És o rapaz que foste;
O desejado
Que (se) vem…
Pela bruma.

Todos os sinónimos do teu cheiro;
Inalo
Quando te vejo.
Teu corpo inteiro em mim,
Escravo, escrevo, do desejo.


Quem dera ser a água que te desenha
Os ombros
E o almíscar dilui.
O corpo, como nudez,
É o que eu, em tempos,
Correndo por ti… fui.

Quando o teu corpo maduro
Se desnuda…
Pousa sobre ti a veste balsâmica do deleite.
O teu aroma oscila numa espiral de feitiço;
Envolves-me de incenso
No grito libertado
E intenso
De Luís Cernuda.

Ando com livros dentro da cabeça;
Teu hálito de papel bíblia,
Tudo o que em mim transcrito está.
A capa e contracapa o teu abraço
Urgente.
Já!

A viagem do regresso volátil e aromático;
Aporto no porto que o horto
Do aconchego do teu perfume
É o lume… incendiando o gozo;
Intensa labareda de repouso estático.

Há mar em tudo quanto escrevo.
A mar tudo me lembra,
Pelo cheiro.
O amar intenso, inteiro…
Entre a elevação e o enlevo.

Fotos a preto e branco, amareladas.
O sol rescende ainda na mudança;
Adoro a dor e sou adorador
Da fragrância que és tu.
O hálito e o hábito…
Nas imagens desbotadas.

Janelas que se dobram, dobradiças.
Tal como tu, rapaz,
Se acaso o corpo e alma, enfim, espreguiças.

A memória da pele é um perfume;
Relampejar difuso ao longe, incerto.
Recordo esse aroma.
Onde hei- de pôr a flor de tão grande lonjura,
Nesta procura de te ter…
Por perto?
Restos de ti, que vêm dar à praia,
Perfumados de algas e marés.
São apenas só isso porque és
E essência depurada num corpo;
Erguido, de atalaia.

A ponte estreita entre o aqui e o agora
Sai pelos poros; é olfacto aberto.
Há paisagens redondas de um deserto
Por onde, da consciência, o tempo mora.

À flor da pele, de águas sumarentas,
Imana a olência como nudez cobrindo
Um corpo predisposto para o que inventas;
Indício de um perfume de urze; lindo.

Fosses tu diferente…
E o mar seria um lago.
O sal e o pranto, cócegas nas narinas.
Não és nem um nem outro
Mas, vê, ensinas
A ser mais redolente
Tudo quanto trago.

Olhar alucinado; vulcão que explode
E escorre pelas vertentes de si
O enxofre intenso.
De há muito,
É pelo olhar
Que almejo e penso
A inspiração de tudo…
Quem me acode?

Paixão transfigurada no recorte
De um corpo ensaboado
Que se cruza
Mesmo ao virar da esquina;
Altivo porte…
E o meu, posto na pauta,
Em semitusa.



DO GOSTO
Lambo-te a pele.
A língua serpenteia
Essa rósea epiderme…
E as papilas, de ardor, estão retesadas.
Pupilas do reitor; firmes, inchadas…
No paladar do sangue que se alteia.

Ácido; Agridoce; Varonil.
Travo e sabor
Tal como a flor aberta,
Que liberta, abrindo,
Lá por Março, Abril
E a Berto vai sorrindo.

As letras nas janelas;
Os vidros azulados dos teus olhos.
O palato é o mar que me devolves,
Ao sorrir,
As carícias trocadas…
São novas caravelas.

A pele é o que espero da memória.
Corpo felpudo como um peluche.
A mão direita como pala sobre as sobrancelhas;
Vislumbro, ao longe, o mar do teu regresso.
Manjar das nossas bocas… tão vermelhas.

Ao longo do teu braço,
A transparência do arrojo saciado.
A pança da poesia dilatada
É o Biafra de não te ter amado
Antes de te ter amado.

Sobra das vagas, em teu corpo quieto.
A meias,
Amei-as:
Ameias.
O gosto redondo, vermelho,
Intenso de grés.
As vagas são um corpo
Como muralha erguida por ti, por mim,
Por nós.
Vês?


A alma tem dedadas, como o livro…
O livro tem dedadas como a alma.
Engole-me, engole-me.
Este é o meu corpo,
Este é o meu sangue…
Esta é a morada do meu espírito
Que te sacia…
E acalma.


Um livro como se fosse mar;
Há vísceras no poema
Esterco, lodo imundo.
E a criança ingénua (o leitor)
Vê o veludo das vagas, poema impresso,
E julga ser o que lhe avista a vista…
Todo o mundo.
Se pelo menos tal for visto…
Mais não peço.


Quando o sol se põe entre as palavras…
Ponto final, parágrafo.
Muda-se de linha.
A minha dieta é o que não digo, nem como, nem bebo;
A magreza da existência é toda minha, corpo de antanho,
Estranho, escorrido, adolescente, como efebo.


Debruço-me sobre a pele
Tal como num mirante.
Tudo é superlativo absoluto;
Não me defendo; luto
(Todo de branco)
Vivo de ti nas refeições do olhar,
Tuas feições sou eu (é o bastante); o espelho
Que, pelo beijo, posso embaciar
Como a neblina pela bacia ao longe; o mar distante.
A pele desperta em mim todo o Levante.

Vem-me o teu nome à boca
E o sumarento gosto de ti
É sumo de romã.
Mastigo-te a presença;
Intensa.
O sol é uma rodela de laranja
Com a cegueira por franja…
De manhã.

Empresto, à página, a ceia dos teus gestos,
Ei-la dormente, a fazer a sesta quinta- feira à tarde…
Da vindima e do rebusco, ao lusco-fusco
Tenho, nas mãos vazias, o que em teu olhar
Reparo que arde.
Tens os bagos, eu tenho os cestos.

Nas mãos, antes da nudez;
Espremo-te em mim, nas minhas mós.
O suco libertado é fogo fátuo à flor da campa rasa,
A cama, à bolina de um mar de chamas
Quando, gemendo, chamas por mim,
Por ti, por deus… por nós.

À mão de semear, trago a promessa.
O meu corpo lavrado à tua espera
Que actua, pela charrua.
Rasga-se o rego… tal como a quilha
Desvirgina o mar.
Navego.

Ponte de muitos arcos, o teu sorriso.
As margens do teu beijo…
O que preciso.

Saboreio as palavras, como amoras.
O sangue dos meus lábios
É um poema desventrado.
O nosso amor, amor,
Sem sono…
Fora de horas.


A intenção tem o peso redondo,
E enorme,
De uma abóbora no telheiro
Amadurando ao sol.
Teus dentes as pevides.
Sugam-se as bocas,
Tudo me sabe a hortelã…
E a mentol.

No prato fundo do teu colo,
A sensualidade transborda, rasa, rasa
Como a semente que nos tomba ao solo.
Germina, estremece… como as estrelas
Concubinas, logo após o ocaso
E, ao Sul, desenha o marco, o polo
Aqui, mesmo por sobre a nossa casa.

Empresto a nitidez ao gosto amargo,
Como emprestara os gestos noutra altura.
A ceia de uma página magrizela.
Que poema tão feio!
É uma careta feita por detrás dos montes,
À procura da Sarrandilheira.
Onde está ela?

A fome por lanterna
Em noite escura.
Tanta pele encovada…
É só fartura
Da ânsia que consome,
E é tão eterna.


DA VISÃO
Um corpo quase todo sombra
E ainda há
Uma réstia de luz que delimita e finda
O recorte que o corte esculpe e imita
A área do infinito; Bonita…
Chinesa, alfombra, linda.

Ao lupanário, fui buscar a lupa.
As meninas ”raquíticas” estas rimas
E a madame, a matrona, esta poesia com formas de baleia
Inconformada.
Expele, pelo nariz,
No alto
Da cabeça…
Tal como um frade que é uma abadessa
Tomando, sem decoro,
Os meninos de coro
E…
Revirando os olhos, ajoelha-se e diz,
Feliz,
Upa! Upa!

A luz ofusca apenas insensatos;
Olho no fundo do olhar…
Os meus olhos são, regatos.

Há um brilho de chuva
Na luz que faz ricochete pelos muros.
Tudo tão perene e certo…
Menos os meus sonhos inseguros.

Assomas-te à esquina do domínio
Redondo, de um vocábulo.
O que ainda não nos descreve,
Pela visão, é que é o fascínio.

Ao longo dos telhados do meu silêncio,
Vejo a ladeira para a chuva…
Que há- de ser Tejo.
Quem anda à chuva…Molha-se
Sob as quilhas… diz um peixe;
Barbatana, passo a Paço
Entre o Terreiro e Cacilhas.

Vi crescer, cá por dentro,
Um outro ser.
Um outro destino mais fingido
Que a ilusão em que tropeço…
Pois que a mentira é a verdade mais perfeita.
Dilato-me, e dilato o medo;
Sou parteira de mim mesmo
Por ser público, e impresso,
O meu segredo.

Um corpo, onde a nitidez
Nada mais é que o contorno das sombras.
A minha ilusão? O que se escapa, a salto,
No assalto da fuga transfronteiriça;
É a bordadura da negrura
Que o sonho me atiça.

Uma bandeira,
Tal como uma coroa;
Com o único brilho essencial;
Sermos Pessoa.

A rápida visão, toda de relance;
Para que uma imagem, por dentro
Da retina, pondo as córneas à outra…
Para que
Bamboleando, dance.

A pele, como um céu por sobre o qual
As nuvens correm de mansinho…
Revela-se na miragem
De quem mira a aragem e,
No reflexo do brilho, em seu regresso,
Vê-se de bem consigo; sozinho.

O escuro é uma cegueira
Para o mundo exterior.
Do rebordo, o halo desenha-se difuso
Na opacidade da carne, sem opa nem cidade, incandescente
Ao sol… sobre o areal da praia
Ainda por criar… num resfolgar de lascívia
Que, aos poucos, desmaia.

A cicatriz ostenta o brilho,
O rasto da pele que nunca envelheceu.
É pela cicatriz que reconheço
Aonde chegaste, sem teres partido,
Bem antes de um t, e eu, me ter feito teu.

Vivo pelos olhos.
O mundo refulge em mim, no arco-íris
Decomposto através do cristal;
Prismático.
É pelos olhos que respiro o ar do olhar
Na transparência…
De não me (re) conhecer, afinal.

Quando me lês,
Entro por ti dentro
Como uma pua,
Uma farpa,
Um estilhaço.
Sangras no que entendas
E a pele esticada,
Como em tendas beduínas…
Gemes; qual de nós existe pela dor?
Tal como o outro pé
À beira de uma escarpa?

A vida desventrada.
Vejam, sulcos, a terra revolvida
Do avesso.
Quero o regresso ao útero…
Mas é pelas sombras dos vales
Que tropeço.

Transcrevo o rio…
E cumpre-se o destino.
Descrevo o leito…
E salda-se a memória.
Vejo ao redor de tudo;
A sorte inglória
De cegueira do oráculo;
O sol a pino.

A treva é uma fresta
A toda a largura do caminho.
Rebenta-se o mar na espuma etérea
Para aveludar a miséria
Que se enxerga
Na enxerga
De um cárcere imundo.
O teu olhar no meu,
Por cima um sol no rosto,
Açoitando o poema com o desgosto
Que o choro e suor,
A pulso, ergue o pelourinho no areal
E o faz coluna grega, erguida,
Entre o Ideal…
E a podridão da vida.

Volteia-me a memória,
Como se esta fosse a chama da vela que alumia.
Recordo-te.
Tudo em mim rescende o dia.
Esqueço-me de ser…
E tudo em mim se torna festa.

A noite tudo engole…
E não mastiga.
É com os dentes do silêncio que vos rio;
Olhamo-nos,
Vemo-nos…
Pensamos ser, não sendo,
Pois é tacteando a morte
Que sentimos o arrepio.



DA AUDIÇÃO
Se encosto o ouvido à tua nudez…
Encontro o som dos seixos
Do mar de regresso às ondas.
Vem, veste-me de languidez,
De corpo inteiro…
Vem, cola-te a mim, como carta de alforria…
Não te escondas,
Que o mar somos nós dois…
Pela poesia.

Desço, pelas raízes do silêncio,
Até ao fundo do teu corpo.
Eis-me, de novo, Orfeu.
Goteja o mundo de fora
O rumor da alma das pedras…
Tu já não és tu, nem eu sou eu.

Estesia, é escutar-te por dentro
No latejar das veias.
Os lagos interiores do sangue e seiva
São os segredos
Onde nos banhamos.
O eco dos nossos risos, uma taleiga
No brilho luxuriante do olhar;
Somos as raízes que amamentam os ramos,
Istmo pelo qual te chego ao centro,
Onde o calcário se desfaz em areias,
E a eternidade se escapa… por entre os nossos dedos.

Há sombras, como sons, dentro de ti
Como a pedra que é lançada
Ao pego quieto;
Um mar… um lago… um charco.
Remanda-se a água, sem mágoa,
E a seguir…
Mais nada…
Apenas meu olhar … como se fosse um barco.

Há vozes que vegetam no coma do silêncio.
Desentubem- me as horas!
Quero ressuscitar
Do sepulcro do poema.
E gargalhar, a bandeiras enrodilhadas,
Com a lucidez de quem tem a loucura
Tanto por essência, como por tema.

Resfolga o som dos rios,
Tal como as cortinas castradoras
Do jorro de sol intenso contra a vidraça.
Entrego os tímpanos à penumbra
E, entre os martelos e os vidros…
Nada se passa.

Circula a linguagem
Como o rastejar da serpente sobre a areia.
Decomponho o branco lívido da afonia
E encontro três harpas sem cordas:
Ser,
Pente,
Teia.


Impressiona-me tua voz,
Tal como o sol
Mergulhando no mar… no horizonte,
Sem um silvo, sem um chiar efervescente.
É a tua voz que me difere
E disfere
E afere o facto de ser; diferente.

Se te ouço… sou real.
Senão, se não te ausculto…
Não estou nem bem nem mal;
Não sou nem a sentença, nem o indulto.

Penso-me, por te ouvir chegar.
Não fora o som da tua imagem,
Tão de dentro, tão de mim…
Que nada, nem ninguém, seria
E nem estaria assim.

Deixa entrar em ti o céu
Como se fosses esponja,
Sem ruído,
Sem brilho,
Opaco.
O fio silencioso da navalha
Está rombo, e espalha,
O fascínio por ti…
Que me desequilibra,
Que me faz fraco.


A pele é muda
E muda-se em flocos de tempo, e de sossego.
O rumor de um corpo que se desnuda…
Escuta-se pelos poros,
Como por um torso de mármore esculpido.
Pouso, num beijo, um cântico de ouvido;
Num bruxedo de cânfora e de arruda.
Nu, como sempre fui, Grego.

A queda só acontece pelo som.
Na cama do fundo do mar, encontrei uma âncora.
Essa que naufragou e agitou todos os mares do mundo…
Todos os oceanos respiraram;
É o assobio da âncora que faz a Terra voltear. Um simples assobio.
Tem menos verdade toda a ciência
Do que o desvario.

Biografia;
A vida escrita pela entoação,
Acção entoada ao deslizar da pena.
Um rio de tinta que descreve a viagem
Pelo muralhar…
É pelo rumor que se petrifica sobre o branco;
Silenciosa,
Odorífera,
Serena.
Tão serena quanto o luar.

A morte não é, do silêncio,
Ausência
Agitam-se os vermes num festim.
Parto de um cristal de gelo
Gorgoleja ainda o cântico líquido das águas.
O silêncio não existe; é mimético
Arlequim.

Goteja o sentimento
E o que ouço
Não sou eu nem o que sinto;
Apenas o momento
Verde e de cegueira alucinante;
Como o absinto.

Será que é da memória este bramir
De um mar todo ele caos?
Regresso, quando já estou a ir…
Fazendo, do que não tive, ou tenho,
As minhas naus.

Despe-se um corpo de si mesmo.
Conta a nudez com a sua forma definida:
É no momento que, não sendo, passa a ser
E se desenha o contorno, ele sim, a vida.

Lúdico exercício.
Este olhar,
No rastejar de um verso
É que se baba o mar.
Ele sim, de todos nós,
O mais disperso.

Sorve as dedadas
Um papel inscrito.
Um livro.
E o silêncio a rir-se,
Rir-se,
Rir-se…
Do seu próprio grito.














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