ESTENOSE DA LIBERDADE
1. Breve História da (Marca) Servidão
A servidão é um péssimo costume. Doutorada honoris causa em consequências inimagináveis, a morte fê-la uma noite, na cama com Saturno, bêbado como um cacho, a fingir um orgasmo pouco provável. Saturno, já se sabe, depois da queca, volta sempre aos seus maus humores e achaques e a morte aproveitou, quanto a mim muito convenientemente, o mórbido e entediante período refractário de Saturno para foder a Humanidade como deve de ser.Nisto, nasce a servidão.Segundos os obstetras da época, a servidão nasceu prematuramente, com apenas meia hora de vida e assemelhava-se a um pequeno caranguejo de borracha. Encharcada em lágrimas falsas, num primeiro e único acto de misericórdia, a morte resolve dar-lhe uma segunda oportunidade e oferece-lhe a possibilidade de um corpo humano belíssimo, cabelos de oiro anelados e o puzzle infinito de um mundo novo para montar. Em troca, a servidão trabalharia perpétua e confidencialmente para a sua mãe, favorecendo eras e epidemias, em regime de subcontratação, num qualquer teatro municipal. O contrato fora assinado com um beijo incestuoso, que passou, à mesma hora, em todos os canais nacionais.Com a sua nova e próspera vida, a servidão tornou-se numa criança muito bonita e rapidamente cativou adeptos em todos os cantos do mundo. Gente que parava na rua para lhe dar um beijo e ficar sem face, era já muito comum. Gente muito motivada que vestia verdadeiramente a camisola da servidão. Gente que trabalhava diariamente para o circo da solidão e não dava conta. Gente que enriquecia, amando a servidão, etc.Aos 4 anos de idade, a diva era já uma imperatriz, consolidada no seu feudo, ministra dos negócios estrangeiros da morte, representante máxima da condição humana no seu próprio habitat. Tinha sido coroada por toda a gente, por toda a parte. Tinha conquistado o amor dos animais, o voto em branco das árvores, o sorriso célere dos rios, o azul do céu e a rede de comunicações mundial.A partir daqui, a História, na generalidade, repete-se.A pequena tirana teve poderes para tudo, ao longo dos séculos, ao longo dos planos. Mas uma súbita e ainda ingénua relação lésbica com a Minúcia fez com, muito cedo, preferisse prolongar a Idade Média até à Idade Media actual. Os seus mecanismos de tortura baseiam-se ainda em sistemas de correntes e engrenagens, que, com todo o meu respeito, funcionam muito bem e hão-de funcionar, mas através dos quais já se vislumbra a contaminação da ferrugem, o consórcio do tempo e da revolução, a vacina óbvia e tautológica, a que nem a morte acede com a sua mais imunda perspicácia.Não obstante este visionário e imponderado panorama, não se avizinha nenhuma funesta cura ou próxima erradição: está sempre na moda a servidão. É como uma doença ucrónica, chique e mediática. O seu corpo é uma narrativa ao mesmo tempo pop e apoptótica e a sua fonte fortemente ecfrástica.Warhol não hesitaria em conceder-lhe um lugar entre as sopas, dentro de uma lata de conservas amarela e cintilante, assinando talvez, com o consentimento de Freud, “O mal-estar da civilização”.andré domingues
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