domingo, 3 de agosto de 2008

MANIFESTO

Havemos de partir a cabeça;
havemos de descobrir as amarguras do infinito,
galopar sobre um cavalo azul, meter os dedos pelo nariz adentro,
destapar a brancura das nuvens
como um sábio grego sobre um muro de cal!
havemos de criar túneis que liguem as solidões;
"Nena Mouskouri, como me alegras o coração,
como destapas as veias e deixas o sangue correr,
qual Tejo entre vales, corrente que ligas a terra ao mar"
Havemos de despir os horizontes,
deitar sobre camas de seda linhas sensuais,
havemos de fazer crianças só com o olhar.
-A nossa sede é um oceano vazio,
havemos de planear o futuro com desdém, qual
saltimbanco preso a uma corda,
havemos de esfregar o nariz no sexo com um olhar
de criança,
havemos de queimar a terra castanha, planear assaltos
ao coração.
faremos florir as tristezas, adubando-as com
mistérios,
faremos tocar clarins sobre gotas de água,
quebraremos espelhos que neguem a solidez da viagem
e haverá algazarra em tudo isto como num comboio
de vespas sobre um carril de poeira,
dançaremos sobre os telhados como loucos empedernidos,
partiremos pratos em almoços gregos,
beijaremos o eu da neve.
"Andam aí os linguareiros do nada denegrindo
dos poetas, dos intelectuais, das ideologias
queimando a história com pontapés de consumo,
luzes-em-cu, pirilampos de ameixas podres,
enguias da escuridão, toupeiras sem luar".
Havemos de cuspir sol para as folhas das árvores,
afagaremos a história como a uma amante,
faremos versos com pedras soltas,
teremos ideologias como formigas no cérebro

saltaremos do passado para o futuro e do futuro para o presente como homens prósperos no
negocio
teremos mil ideologias em trincheiras de mármore,
faremos revólveres com histórias da paixão,
brincaremos com Kafka sobre a música de Beethoven,
seremos tigres dançando sobre sois de merda,
cantaremos o fado com um destino de marés,
ligaremos Alfama ao Mar Morto
com um esguincho de guitarra,
Esfregaremos o peito à paixão com açúcar de Cuba.
Havemos de polvilhar o mar com canela de índia.
Andam aí uns "cinzentões" tapando o sol com a amargura, Ferri-bouts do desepero, esgravatadores da palavra sem sal
melancólicos do umbigo,
homens sem mulheres e mulheres sem homem num poço de frio;
Fazem cinza sobre o humor.
Nós faremos saliva sobre os beijos
Comunicaremos a Sida com os polvos do mar
Comunicaremos a incomunicabilidade faremos do vazio uma laranja de ouro
Nós os poetas, rastejaremos pelos sentimentos com um ardor de vitória, iluminando-os com pedras de sal.
O que há na pele que eu não possa sentir?
O que há na morte que eu não possa ter?

Adão Contreiras 1994

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