I
a deusa está
bêbada
no santuário
e a transgressão faz a lei
era uma madrugada não muito fria. ainda assim madrugada. abril e, era soldado – deitado e, enrolado nos lençóis.
foi nesse estado de adormecimento que me disseram: – na rádio… na rádio dizem para os militares irem para os quartéis.
ouvi, eu próprio, a informação – rádio clube.
não fui. desobedeci às ordens.
se era golpe, queria ser espectador em liberdade.
adivinhava-se nova ditadura – o general, esse, conhecera-o em áfrica. o curriculum não era famoso.
cascais – lisboa de combóio e estaria no centro dos acontecimentos.
não… seria ir para a confusão.
muita gente, sabe-se sempre pouco. esperei.
e abril chegou
como um amante
como numa viagem d’acido
como num passeio agitado
como num poema de Rimbaud
como…
abril sempre. abril cravos. abril soldado. abril e depois maio e já não era eu militar, voltara a ser uma pessoa livre e com a guerra passada – não para trás das costas; as imagens ainda visitam (muitas vezes) os sonhos. a vigília…
e à agitação segue-se a esperança e à esperança a desilusão.
II
as manifestações do desejo podem escapar-nos
… porque rebeldes
ainda somos do tempo em que 20 escudos chegavam – o vinho corria do barril a jorros…
e a anarquia era um estado poético. apenas isso.
o passado era algo de desconhecido e os velhos “guerrilheiros” não davam sinal de vida. só os soube vivos muito depois.
até lá era o surrealismo o dadaísmo – um estar em estética. um estar poético/filosófico.
do engajamento político livrei-me.
sempre.
felizmente…
lia jarry, sade, rimbaud, vian, tzara, apollinaire, nietzsche, artaud para além das edições do pacheco.
lia o subterrâneo
o que se encontrava nas estantes mais negras das livrarias – o que escapava aos olhares dos bufos.
o teu sexo
floresce por entre as tábuas dum caixão
voltemos
meu amor
voltemos
ao calor da terra.
A mortalha é a roupa
os nossos corpos gozam a doce nudez
depois pintavam-se paredes; “nem deus nem chefes”…
depois, ainda, veio o pasquim. a livraria elefante circular ali para o bairro alto. o “situacionismo” e toda uma ressaca com mortes pelo meio.
e continuamos à espera do d. sebastião
do resultado do totobola
dum toque no telemóvel
mas já sabemos ir à net…
continuamos analfabetos, incultos, futebolisticos
temos fátima
centros comerciais
e muitos estádios novos
e é frustrante
e é uma chatice
e é uma merda
“olh’à merda!…”
estamos em 2010. abril, o abril de referência já era.
e
com Mário Henrique Leiria vos deixo: – O amor feito de noite/ ao som metálico/ de uma orquídea vermelha/ é a estrada uivante/ que se enrosca em tranças/ de animais marinhos.Manuel Almeida e Sousa

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