quarta-feira, 5 de maio de 2010

o 25 do M.A.S

I




a deusa está

bêbada

no santuário

e a transgressão faz a lei



era uma madrugada não muito fria. ainda assim madrugada. abril e, era soldado – deitado e, enrolado nos lençóis.

foi nesse estado de adormecimento que me disseram: – na rádio… na rádio dizem para os militares irem para os quartéis.

ouvi, eu próprio, a informação – rádio clube.

não fui. desobedeci às ordens.

se era golpe, queria ser espectador em liberdade.

adivinhava-se nova ditadura – o general, esse, conhecera-o em áfrica. o curriculum não era famoso.

cascais – lisboa de combóio e estaria no centro dos acontecimentos.

não… seria ir para a confusão.

muita gente, sabe-se sempre pouco. esperei.

e abril chegou

como um amante

como numa viagem d’acido

como num passeio agitado

como num poema de Rimbaud

como…

abril sempre. abril cravos. abril soldado. abril e depois maio e já não era eu militar, voltara a ser uma pessoa livre e com a guerra passada – não para trás das costas; as imagens ainda visitam (muitas vezes) os sonhos. a vigília…

e à agitação segue-se a esperança e à esperança a desilusão.



II



as manifestações do desejo podem escapar-nos

… porque rebeldes



ainda somos do tempo em que 20 escudos chegavam – o vinho corria do barril a jorros…

e a anarquia era um estado poético. apenas isso.

o passado era algo de desconhecido e os velhos “guerrilheiros” não davam sinal de vida. só os soube vivos muito depois.

até lá era o surrealismo o dadaísmo – um estar em estética. um estar poético/filosófico.

do engajamento político livrei-me.

sempre.

felizmente…

lia jarry, sade, rimbaud, vian, tzara, apollinaire, nietzsche, artaud para além das edições do pacheco.

lia o subterrâneo

o que se encontrava nas estantes mais negras das livrarias – o que escapava aos olhares dos bufos.



o teu sexo

floresce por entre as tábuas dum caixão

voltemos

meu amor

voltemos

ao calor da terra.

A mortalha é a roupa

os nossos corpos gozam a doce nudez



depois pintavam-se paredes; “nem deus nem chefes”…

depois, ainda, veio o pasquim. a livraria elefante circular ali para o bairro alto. o “situacionismo” e toda uma ressaca com mortes pelo meio.

e continuamos à espera do d. sebastião

do resultado do totobola

dum toque no telemóvel

mas já sabemos ir à net…

continuamos analfabetos, incultos, futebolisticos

temos fátima

centros comerciais

e muitos estádios novos

e é frustrante

e é uma chatice

e é uma merda

“olh’à merda!…”

estamos em 2010. abril, o abril de referência já era.

e

com Mário Henrique Leiria vos deixo: – O amor feito de noite/ ao som metálico/ de uma orquídea vermelha/ é a estrada uivante/ que se enrosca em tranças/ de animais marinhos.Manuel Almeida e Sousa





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